quinta-feira, abril 26, 2007

ACESSIBILIDADES, MOBILIDADES E (IN)SUSTENTABILIDADES URBANAS: A CIDADANIA EM CAUSA – artigo de João Lutas Craveiro - Infohabitar 137

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ACESSIBILIDADES, MOBILIDADES E (IN)SUSTENTABILIDADES URBANAS: A CIDADANIA EM CAUSA


(palavras chave: acessibilidades, mobilidades, sustentabilidade, participação, cidadania, problemas de Lisboa, Telheiras, CRIL, planeamento, urbanismo, João Lutas Craveiro, NESO, LNEC)

João Lutas Craveiro é Investigador Auxiliar do Núcleo de Ecologia Social (NESO) do Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Docente Convidado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Este artigo surge na sequência de uma oportunidade de reflexão, criada no Núcleo de Ecologia Social (NESO) do Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), a propósito das temáticas inscritas no Plano de Investigação Programada em curso naquele Laboratório Nacional.

Refiro-me ao aprofundamento de uma linha de investigação que tem privilegiado, no NESO do LNEC, a análise sobre as mudanças territoriais, os seus impactos ao nível das comunidades humanas, as pressões sobre os sistemas naturais e os processos de decisão a propósito de novas infra-estruturas. Evidencia-se nesta linha de investigação, justamente intitulada “Mudança social, território, recursos naturais e infra-estruturas de ambiente”, a necessidade do acompanhamento das mudanças territoriais e dos modos de fazer a cidade, sob a compreensão das mútuas dependências entre os ambientes natural e construído.

O presente artigo não pretende desenvolver, neste lugar, uma avaliação daquela linha de investigação, inscrita no Plano de Investigação Programada do LNEC (período 2005-2008). Pretende-se, neste fórum de intervenção e de debate, tão só explorar algumas questões de análise e apresentar uma grelha de leitura acerca das mudanças territoriais e dos modos de fazer a cidade.

Apresenta-se também um conjunto de reflexões (1) a propósito de dois casos de estudo que, durante o presente semestre, o NESO desenvolverá procurando discriminar um campo de pesquisa sobre as mudanças territoriais, envolvendo a sustentabilidade das comunidades urbanas.

Uma das marcas distintivas dos espaços urbanos é a mobilidade que solicita, constantemente, a construção de novas acessibilidades e infra-estruturas. Por sua vez, esta construção reforça e orienta os fluxos das deslocações massivas, transformando de forma inexorável os territórios e as suas identidades, dando lugar a pressões urbanísticas.

A expansão urbana em redor de Lisboa, desde os anos 50 do século passado, constitui um exemplo desta transformação brutal, alargando as áreas de residência na dependência do centro metropolitano e provocando um efeito uniformizador dos campos à volta de Lisboa amotinando as suas identidades: «Os antigos lugares fronteiriços a Lisboa foram tomados por formas de edificação e por populações que introduziram dinâmicas alheias à vida dos arrabaldes de uma cidade tradicional» (BAPTISTA, 2006: 59).

É este jogo dinâmico entre as acessibilidades e as mobilidades, escrutinando-se a cidade como um campo topológico de relações de poder e esclarecendo os processos de decisão política sobre o ordenamento do território, que se pretende focar com o desenvolvimento de dois casos de estudo. Estes dois casos de estudo suportam uma primeira abordagem exploratória à temática mais geral das mudanças dos territórios e da questão da sustentabilidade das comunidades urbanas.

O primeiro caso de estudo abrange uma zona que se pode considerar como uma área (sub)urbana qualificada, o Bairro de Telheiras (2), dentro da cidade de Lisboa, caracterizado por uma população rejuvenescida, enquadrada por elevados níveis de habilitações escolares e profissionais e que escolheu esta área de residência devido à sua qualidade arquitectónica, à exigência de conjugar a centralidade com a acessibilidade e, entre outros factores, à valorização do conforto e intimidade do lar com a distinção dos espaços exteriores (FERREIRA et al, 1990).

Por corresponder a projectos de intervenção urbanística diferenciados, e até antagónicos sob a eleição do espaço público e da amenidade ambiental, seleccionou-se no Bairro de Telheiras o caso da Quinta de Sant’Ana, objecto da construção de um Parque Urbano ladeado por uma nova estação de Metro (3) e por novas edificações. Este caso ilustra bem duas alternativas em jogo, extremando os argumentos urbanísticos (neste exemplo, a favor de novas urbanizações enquadradas por um Parque Urbano e servidas por novas acessibilidades e transportes públicos) dos argumentos naturalísticos (em defesa da sacralização da natureza e da funcionalidade dos espaços rurais como reserva de identidade e lugar de práticas colectivas de amanho da terra).

Estes argumentos encontram portadores institucionais privilegiados: o Metropolitano de Lisboa, a Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL), empresa com responsabilidades de construção na zona de Telheiras e defensora do Parque Urbano, a Associação de Residentes de Telheiras e a Divisão de Projectos e Estruturas Verdes da Câmara Municipal de Lisboa com soluções sugerindo a criação de Hortas Pedagógicas, e de espaços verdes intervencionados pelos moradores, soluções então defendidas pelo Arquitecto Ribeiro Telles.

Os casos de estudo a desenvolver visam equacionar o modo da expansão urbana, aferindo a relação estreita entre a promoção de novas acessibilidades urbanas e o reforço das mobilidades, esclarecendo-se o sentido das alternativas em jogo e a dinâmica das identidades e das imagens dos lugares intervencionados para uma melhor compreensão dos processos de decisão sobre novas infra-estruturas urbanas e das dimensões da sustentabilidade das comunidades e do edificado.

Em relação ao primeiro caso de estudo, refira-se que está em jogo não apenas a oposição entre o ambiente natural e o ambiente construído mas também a questão das decisões políticas sobre o ordenamento do território e a respectiva componente da participação pública no domínio de uma cidadania que é cada vez mais pró-activa e que, por antecipação, procura escrutinar tecnicamente soluções que podem, na sua essência e objectivo, representar um novo modelo de relações de poder que alguns autores apelidam por governação [governance] (4).

As duas Figuras seguintes tipificam o regime de oposição entre ambiente natural e ambiente construído dando lugar a soluções alternativas que, na ausência de um consenso técnico e político, acabam por se excluírem mutuamente sob o prejuízo da negociação para a procura de soluções integradas. Neste caso, as valências dos argumentos urbanísticos e dos argumentos naturalísticos serviram propósitos de antagonismo tornando as soluções, primariamente defendidas, incompatíveis: «A Quinta de Sant’Ana é hoje o Jardim da Praça Central e do Metro, em que os elementos da quinta são meramente decorativos, o moinho e o poço só aparentemente são a origem da água (a água é da EPAL), a latada de vinha, pensada por Ribeiro Telles, é evocada por uma pérgula metálica, os lagos de fontes cibernéticas, de luzes e sons, incomodam os vizinhos com as variantes mecânicas bruscas, e as árvores de grande porte não se sustentam na camada de terra, que cobre os estacionamentos subterrâneos e a estação do Metro» (CONTUMÉLIAS, 2006: 139).

O que está em causa é, pois, a sustentabilidade do edificado e a equidade social dos processos de decisão política, sendo oportuno discriminar melhor o carácter de uma dissensão entre a cidade planeada e a cidade imaginada, e apropriada, pelos seus utilizadores.

Figura 1: Esquisso de projecto para «Espaço Verde em Telheiras/Escola de Jardinagem e Hortas Pedagógicas» (na Quinta de Sant’Ana) da Câmara Municipal de Lisboa.

Figura 2: Parque Urbano e edificado na Quinta de Sant’Ana (situação actual).

Foto do autor (2007)

O segundo caso de estudo elege uma zona residencial de características muito distintas da primeira, e que pode ser classificada como uma zona (sub)urbana desqualificada, originada por um fenómeno de suburbanização intensiva que se estendeu aos concelhos da primeira coroa em redor de Lisboa (é o caso da Amadora).

Esta coroa suburbana caracteriza-se pela elevada densidade do edificado, pelas deslocações massivas casa-emprego (deslocações para fora do concelho de residência), com uma duração relativa e considerável no tempo dos trajectos, pela sobrelotação dos alojamentos e pelos fracos níveis de conforto dos mesmos, para além da sobre-representação, ao nível profissional, de trabalhadores não qualificados do terciário (INE, 2004: 120-122).

Equaciona-se, também neste segundo caso, a envolver a zona de Alfornelos e envolvente, a equação acessibilidades-mobilidades e os seus efeitos no campo das identidades sociais e locais, sob a observação das transformações dos territórios. Neste caso, a construção da IC17, Circular Regional Interior de Lisboa (CRIL), sub-lanço Buraca-Pontinha (incluindo ligações a Benfica), acarreta impactes sociais negativos, pelo efeito-barreira e os níveis de ruído, por exemplo.

É certo que a conclusão da CRIL significa também uma oportunidade para uma melhor gestão das acessibilidades na área metropolitana de Lisboa, nomeadamente prevendo-se o alívio da 2ª Circular em cerca de 40 mil veículos, a redução de 20% do tráfego na Calçada de Carriche e de 4% de veículos pesados no interior da cidade de Lisboa. Em relação ao movimento de tráfego estimado, e em função da sua redistribuição, os impactes da construção da CRIL podem ser considerados positivos.(Quadro 1).



Quadro 1: Movimento de veículos estimado até ao ano de 2009

Fonte: MOPTC, 2006

Subsiste a questão dos impactes negativos, referindo-se aqui os de ordem social. No entanto, mesmo admitindo a mitigação dos impactes sociais negativos já referidos (efeito-barreira e ruído), pois encontram-se equacionadas soluções em túnel (5) e a promoção de medidas de reabilitação urbana (exemplo ilustrado na Figura 3), prevalece a discussão sobre o traçado (Buraca-Benfica) onde uma denominada Associação Cívica de Moradores de Alfornelos (reunidos com as comissões de moradores de Santa Cruz de Benfica e Damaia) apresenta alternativas que considera tecnicamente viáveis (Figura 4).

Figura 3: Exemplo de intervenções a desenvolver na zona da futura CRIL



Fonte: MOPTC, 2006


Figura 4: Dissensão sobre o traçado da CRIL

(A verde: traçado alternativo)
Fonte: Associação Cívica de Moradores de Alfornelos

Ora, assinalam-se algumas questões comuns que se destacam nestes dois casos aqui esquematizados: a dissensão social a propósito de Obras Públicas com base em diferentes percepções sobre a evolução dos territórios e a sua qualidade de vida, o relativo fracasso dos mecanismos da participação pública, que devem ter como missão sufragar, do ponto de vista social e técnico, as grandes Obras e (na ausência desse sufrágio) a consequente litigação ambiental.

Não se defende que as Obras Públicas devam merecer um absoluto consenso social e técnico, o que seria improvável em democracia, mas parece urgente repensar os mecanismos da participação pública, os períodos e os conteúdos da discussão (no diálogo entre técnicos e grupos de cidadãos) dos impactes sociais e ambientais suscitados pelas grandes Obras.

Parece também evidente que os recursos mobilizados por grupos de cidadãos apelam, cada vez mais, a uma legitimidade e racionalidade técnicas na análise dos projectos, o que pode constituir um elemento facilitador de futuros consensos mais alargados, dependendo dos momentos da discussão e da capacidade dos decisores (locais e nacionais) em antecipar os períodos de reflexão pública.

Convenhamos que há sempre um momento para decidir e para agir, e que as grandes Obras que servem o interesse público (já sujeitas a complexas etapas de avaliação e de licenciamento) não podem ficar reféns de interesses bairristas ou que invoquem o privilégio de um sítio em particular por sobre o interesse geral.

Os dois casos resumidos também indiciam as contradições dos protestos organizados sob a mobilização local: num caso parece estar em causa a preservação de uma quinta e de terrenos livres, para a promoção de um uso não urbano, no outro associações locais defendem exactamente uma alteração de traçado da rodovia, alteração essa que afecta as áreas não-urbanas e os terrenos livres, não se advogando aí a sua preservação para actividades de lazer ou utilidades marginais de matriz rural.

Os estudos a potenciar no âmbito dos estágios abertos pelo NESO visam, pois, discriminar um sistema de actores, decisores e stakeholders, a propósito das grandes Obras Públicas com particular incidência para a correlação entre a promoção de novas acessibilidades e o reforço das mobilidades, na área metropolitana de Lisboa. Deve atender-se, ainda, às relações entre as infra-estruturas ligadas aos transportes e a edificação de novas áreas urbanas, porventura marcadas por fortes mecanismos especulativos (NUNES DA SILVA, 2003: 419). Como se sabe, também, a expansão urbana de Lisboa deve muito às configurações das malhas rodoviárias e às redes de transportes (MATIAS FERREIRA, 1987).

Estes estudos constituem-se, assim, como estudos exploratórios para um guião de análise sobre as mudanças territoriais, as questões da cidadania e as identidades locais. Num nível mais epistemológico, os estudos colaboram para a identificação das relações entre a Engenharia e a Sociologia, sob a aferição da sustentabilidade do edificado (Figura 5). A dimensão tecnológica das intervenções e as condições territoriais implicadas no planeamento das mudanças acabam por interpelar, de forma incontornável, a Engenharia e a Sociologia (6).


Figura 5: Acessibilidades e Mobilidades, interpelações do território e da tecnologia


As mudanças dos territórios, os processos de decisão política e as avaliações técnicas, como também a questão das identidades sociais e a sodalidade (7) ou a formação de grupos de cidadãos, por interesses próprios e partilhados, renovam as questões da cidadania (8) e da sustentabilidade do edificado na medida em que questionam os modos de fazer a cidade impondo a integração entre os factores humanos, políticos, tecnológicos e territoriais.

A promoção das acessibilidades pode criar também, para além de novas mobilidades e ligações urbanas, novas fragmentações territoriais e desvalorizações de áreas de residência exacerbando as divisões sociais dos espaços urbanos (GRAFMEYER, 1994: 41).

Assim, um urbanismo residencial com a marca da sustentabilidade não pode dispensar, sobretudo nas zonas de interface urbano-rural ou centro-periferia, «a estruturação socioespacial dos espaços livres, o equilíbrio agrourbano […]» (BAPTISTA COELHO, 2006: 368) e o balanço necessário entre a tradição e a modernidade, o ambiente natural e o ambiente construído.


Notas:
(1) Agradece-se o contributo, para a reflexão que se tem vindo a consolidar no âmbito da linha de investigação referida, dos sociólogos Paulo Machado, Chefe de Núcleo, e Álvaro Pereira, bem como das frequentadoras dos estágios no NESO Dianne Ackermann, com formação em Sociologia e com ligação ao Instituto de Urbanismo de Grenoble (França), e Cátia Caseiro, finalista do curso de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa. Os estágios de Dianne Ackermann e Cátia Caseiro inserem-se no desenvolvimento dos casos de estudo que a seguir se enunciam.

(2) Os limites do Bairro de Telheiras podem ser «fechados» entre vias rápidas: 2ª Circular, Eixo Norte-Sul e Av. Padre Cruz (embora as referências a Telheiras possam ser mais «instáveis», estendendo-se quer para a Freguesia de Carnide quer, mais a sul, em direcção ao Campo Grande onde surgem construções identificadas como Telheiras). O caso de estudo situa-se no conflito que envolveu a expansão do Metro para Telheiras e a urbanização em redor da antiga Quinta de Sant’Ana (que contempla, hoje, a nova estação-terminal do Metro para essa zona, e um Parque Urbano).

(3) O Metropolitano expandiu-se até Telheiras, e as obras para a nova estação começaram no ano de 2000 subvertendo, então, o espaço rural denominado por Quinta de Sant’Ana. Não se advoga aqui a manutenção dos espaços rurais, independentemente das transformações urbanas, ou a sujeição dos espaços rurais a uma apropriação simbólica das suas referências, na satisfação de uma nostalgia das origens, mas tão só se apresenta um caso de estudo a potenciar discriminando-se as alternativas mais contrárias em jogo nos modos de fazer (e olhar) a cidade.

(4) No limite, é preciso distinguir entre governo e governação, citando-se James Rosenau (PUREZA, 2001: 241), pode defender-se que «governo sugere actividades que são apoiadas por autoridades formais, pelo poder político, enquanto governação se refere a actividades apoiadas em valores partilhados que podem derivar ou não de responsabilidades ditadas por via legal e formal e que não requerem inevitavelmente o apoio do poder político para superar as reservas e garantir o cumprimento». José Manuel Pureza (op. cit.) tem sido crítico desta concepção. Pessoalmente prefiro o termo empowerment (apoderamento) para traduzir a possibilidade de comunidades territorialmente emancipadas (CRAVEIRO et al, 2005) envolvendo novas dinâmicas de participação pública que não dispensam os requisitos da formalização institucional, antes os solicitam como um instrumento de reforço dos seus argumentos social e tecnicamente determinados.

(5) O estudo realizado pela COBA (datado de Setembro do ano de 2006), referente à avaliação ambiental das alterações do projecto inicial da CRIL (sublanço Buraca-Pontinha), aponta expressamente para soluções em túnel em trechos críticos, ou para a adopção de barreiras acústicas, nomeadamente do lado do Bairro de Santa Cruz.

(6) Não é por acaso que o NESO inscreveu no seu Plano de Investigação Programada, em curso, uma linha de investigação exclusivamente vocacionada para a relação entre as engenharias e as ciências sociais e humanas.

(7) Em Sociologia entende-se a sodalidade como a capacidade humana de constituir grupos, definidos como unidades de actividades (BAECHLER, 1995: 57). Não se deve confundir este termo com o termo comum das sociabilidades. O termo sociológico sodalidade é mais oportuno para a análise da formação de grupos, nomeadamente de grupos de pressão em contacto com o poder político, grupos considerados no seu estado organizado.

(8) O novo conceito de cidades sustentáveis requer, aliás, uma forma de planeamento que contemple a participação dos cidadãos, numa aproximação entre as abordagens top-down e as abordagens bottom-up (MUNIER, 2007: 53).


Bibliografia citada:
BAECHLER, Jean. Grupos e Sociabilidade, in Tratado de Sociologia, Ed. Asa, Porto, 1995: 57-95.

BAPTISTA COELHO, António. Habitação Humanizada, I&D, Programa de Investigação, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, 2006.
BAPTISTA, Luís Vicente. Urbanização, Ruralidade e Suburbanidade: Conceitos e Realidades, in Relações Sociais e Espaço. Homenagem a Jean Remy. Ed. Colibri, CEOS, Investigações Sociológicas, Lisboa, 2006: 55-66.

CONTUMÉLIAS, Ana. Um Quadradinho Verde na Aldeia de Telheiras, Plátano Editora, Lisboa, 2006.

CRAVEIRO, João, MARTINS, Marta e ALMEIDA, Ana. Práticas e Processos de Empowerment; a análise das respostas ao Questionário. Nota Técnica 04/05-NESO, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, 2005.

FERREIRA, António Fonseca, GUERRA, Isabel e PINTO, Teresa. L’usage et l’appropriation du logement a Telheiras, in Sociedade e Território, Ano 5, Setembro, 1990: 43-51.

GRAFMEYER, Yves. Sociologia urbana, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1994.

INE, INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA. Tipologia Sócio-Económica da Área Metropolitana de Lisboa. INE, Lisboa, 2004.

MATIAS FERREIRA, Vítor. A Cidade de Lisboa: de Capital do Império a Centro da Metrópole, Ed. Dom Quixote, Lisboa, 1987.

MUNIER, Nolberto. Handbook of Urban Sustainability, Springer, Dordrecht, 2007.

NUNES DA SILVA, Fernando. Transportes e Acessibilidades, in Reformar Portugal, 17 Estratégias de Mudança, Oficina do Livro, Lisboa, 2003 [5ª edição]: 399-457.

PUREZA, José Manuel. Por um internacionalismo pós-vestefaliano, in Globalização, Fatalidade ou Utopia?, Edições Afrontamento, Porto, 2005: 233-254.

sexta-feira, abril 20, 2007

O CÉU DE LISBOA – artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 136

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O CÉU DE LISBOA


Convidam-se os leitores a apreciarem um novo texto de Celeste Ramos, um texto sobre “o céu de Lisboa”, ou será que não é sobre o céu da cidade, de qualquer cidade amada.
E depois deste texto, e da mesma boa amiga Celeste, um segundo texto se junta, um texto “segundo”, que não é necessário depois do primeiro, mas que será lido, por quem o quiser ler, desde que com um espírito aberto e receptivo, semelhante ao que foi necessário para o escrever.
E os leitores atentos entenderão o contraste entre o céu da cidade, que nos deixa pensar sem limites, e os limites que existem, cada vez mais, em muito do que ainda faz a verdadeira beleza do nosso mundo.

Foi um pequeno e livre comentário do editor,

ABC



O CÉU DE LISBOA

Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…
Depois de escrever, leio …
Porque escrevi isto ?
Onde fui buscar isto ?
De onde me veio isto ? Isto é melhor do que eu …
Seremos nós neste tempo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos ??

(In: Álvaro de Campos, Edição Ática de 1958)



Fig. 00

Que tarde tão bela e tão luminosa tal que toda a gente deveria estar na rua – sim, na rua – a ver o dia, a ver a luz, a ver tudo o que o olhar pode olhar e "ver" para além do que é visto e se mostra. E a ver também as árvores e os pássaros se é que ainda há pássaros na cidade.

Ver e sentir e, podendo, comunicar com alguém o sentimento de banho de luz na tarde luminosa e fresca de Lisboa.

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras .
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, na verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta com várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas
Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e tudo para ele é pouco

Cada alma é uma escada para Deus
É um corredor-Universo para Deus
Cada Alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito



Fig. 01

Olhei para o chão e as pedrinhas dos passeios parecia que sorriam à luz daquele sol rasante iluminando-as e dando-lhe existência na forma, e cor, e luz e vida.


Olhei para as plantas, algumas que sabiam que algo se estava a passar e que iria acabar em breve, despedindo-se do nosso olhar com cor de oiro porque a morte não tem de ser só negro e tristeza porque o negro é a ausências de todas as cores que é também a cor do céu mais escuro e que agora até tem mais cores do que se pode calcular e inventar.

Olhei para a terra tão pouca e cada vez mais rara porque betão e betuminoso a invadem implacável e impunemente mesmo com os Polis que tudo re-qualificam impermeabilizando o inimaginável, mas terra que ainda a há na cidade, e tão castanha e refrescada pela chuva acabada de cair que dava perfume que parecia que respirava e falava com as plantas que segurava bem, porque lhes tinha permitido criar raízes para poderem ali ficar todo o tempo do mundo e serem vistas muitas vezes por muita gente se houver quem para elas goste de olhar e compreender como são vida e alegria da própria terra.



Fig. 02

Mas, e a luz ?
Estava sempre a mudar porque lá mais no alto aquelas nuvens que permitiam o sol e a luz, eram no entanto muito cinzentas e por vezes tão negras, mudando de formas constantemente a desafiar o rosa e o oiro que o sol insistia dar-lhes, como se o céu com os seus caprichos as fizessem dançar e também ouvir muito ao de leve algum diálogo, talvez musical, provocado pela atrito das partículas de água de que se formam e, nunca se sabe, se é sol se é borrasca, se é a maior das tempestades quando as partículas se agridem até faiscar.

No entanto que felizes ainda somos os que vivemos aqui enquanto tudo fizermos individual e colectivamente para que a fricção das partículas de chuva não venha nunca a provocar terríveis perturbações electromagnéticas no céu que fazem tudo desabar - só duas gotinhas de água a friccionar uma na outra, por diferença de temperatura, podem ser o início da pior das devastações e morte pois que sendo embora fenómenos naturais podem ser reforçados na sua violência e ocorrência pela mão humana e mesmo deslocalizados para lugares onde não pertenceria acontecer, como é o caso do país onde até a natureza foi sempre doce e pacífica, mas já não é.

E já não o é, pois que tendo o clima mudado e o país despovoado em benefício das áreas metropolitanas, continua-se a ignorar o constante des-ordenamento de todas as paisagens, mas também a vigilância de áreas remotas e sem habitantes, num eterno esquecimento da dinâmica dos territórios face ao uso humano ou às intempéries, normais ou acidentais, tornando-se assim o ordenamento mais e mais premente não importa em que espaço nacional; diríamos mesmo que a “velha” GNR que a cavalo percorria o país rural, faz falta ela ou outra instituição, que se ocupe de ver “o que se vai passando por aí”.

Mas que felizes podemos ser ainda se percebermos a parte que nos cabe de prevenir e conservar as situações que mantêm o clima que temos ainda, por mais ameaçadoras que já tenham sido algumas situações sobretudo nesta década do novo milénio e mesmo não tendo gravidade maior, o certo é que a nossa cidade começa também e assistir a fenómenos muito fora do que era habitual pois que já neva em Lisboa ou no litoral soalheiro e mesmo no Alentejo.



Fig. 03

Mas que felizes poderemos ser só de ir passear e olhar a luz de todo o ano, olhar a terra e as árvores, olhar as folhas em tempo de despedida mas que deixaram os frutos pendurados e a secar, olhando também para o chão de terra onde caem e logo se transformam em vida, olhar o cais e a água do rio que se entrega ao mar e a luz que dele também vem, e o vento, sim, o vento, a mostrar-se nas ramadas fazendo-o assobiar, e a mostrar-se também na água a ondular, o mesmo vento que faz mudar essas nuvens impacientes que correm pelo céu a anunciar, a anunciar, a anunciar-nos que terra e céu estão ligados e nós de permeio a tentar perceber o que tudo quererá dizer: olhar o chão, olhar o céu, olhar a vida de qualquer lugar.

Sinfonias da terra e céu desdobradas em tudo que a habita, como nós, os habitantes mais cruéis e distraídos das coisas desse eterno diálogo que é imperioso ouvir, ouvir, e não esquecer e escolher ouvir melodia, mas até quando?

Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…

Mas ao mesmo tempo que deixo correr as ideias ia vendo, na SIC Notícias, das 02.30 às 03.OOh da madrugada de 23 setembro 2006 , e pela segunda vez em menos de um ano, um programa sobre os apanhadores de bivalves na ponta mais noroeste do Reino Unido, grande planície de areia de ilhotas e braços de mar e estuários, que logo que a maré começa a subir silenciosamente tudo inundando sem se dar por nada. Estes apanhadores de bivalves, chineses, ilegais, são explorados e arriscam a vida, diariamente, num ritmo de marés que em boa parte desconhecem, dormindo em pardieiros em Liverpool, sem direito a planos nem sonhos de vida, vivendo apenas um dia de cada vez; o que me faz lembrar os portugueses dos anos 60 ou os emigrados do Sahel de hoje, destes primeiros anos do III milénio d.C.

Afinal, cada um pode fazer o quê?? Cada um deverá fazer o quê?



Fig. 04

A minha cidade de céu de todas as cores e luz sem imitação, abriga ainda tanta vida mas também tanta indiferença pelo que se passa pelo mundo, e mesmo pelo que nela se passa, de feio e mesmo de belo porque quem toca a beleza quererá certamente partilhá-la.

Nada?? A impotência do homem comum como eu que só posso, ao menos, escrever sobre isso, e depois?? Depois nada!

Cada um por si, cada nação por si, só pode mesmo ser assim?

O céu cheio de nuvens carregadas de negro e chumbo, para uns a morte, para mim, hoje, a beleza incompleta e imperfeita porque não consigo olhar só uma face das coisas, que até vêm ter comigo sem as ter procurado a esta hora tão tardia.

Depois de escrever, leio …
Porque escrevi isto ?



Fig. 05

Porque fui ver a beleza da luz e das nuvens negras, e porque gostava de poder partilhar a grandeza do que vi mas que, entretanto, foi interceptada pelo que acontece, lá mais longe, onde nem nuvens havia, mas a morte reinava, não a das folhas das plantas, mas dos homens e dos seus sonhos que não tiveram tempo de sonhar.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta com várias pessoas,

E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida

Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,

Sentir tudo de todas as maneiras
Sentir tudo excessivamente
Porque todas as coisas são na verdade excessivas

Mas mais completo serei pelo espaço fora

Sursum corda

E fica a Vida, a que persiste.


Texto segundo:


Fig. 06
In:www.dias-com-arvores-fevereiro 2007

Semente de sobreiro: na terra caiu uma semente que ninguém semeou, que dará uma grande e milenar árvore de onde o homem retirará grande riqueza mesmo sem ter de a regar ou adubar, no entanto sempre ameaçada pelo betão e betuminoso, mesmo sendo a árvore protegida por lei há mais tempo no país, mas que os “Polis” em vez de requalificar, abatem.

Olhar o céu, para quê??
Só o céu??
O que o céu dá vê-se cá em baixo no chão!
O país orgulha-se de ser o maior produtor de cortiça e, dela, a melhor para rolhas para o champanhe francês e apesar de ser o sobreiro a árvore há mais tempo protegida, é constante o abate de milhares de árvores, as que se sabe serem abatidas mas, pior, as que não se sabe porque é escandaloso as abater “ao sol”

Porém, esta árvore que nem de água quase precisa porque o que é “grande” muito dá e nada pede, precisa no entanto de um mínimo pois que não é “palmeira-de-oásis”

Acontece que com a generalização sem nenhum critério da eucaliptização do país desde o vale à montanha escarpada, desde o norte chuvoso ao sul seco, acontece que mesmo no norte onde por enquanto ainda chove, onde ainda há manchas de sobreiro no seu estado de floresta natural, nesta “primavera de 2007” quando as folhinhas novas a nascer deviam, como qualquer outra, ser de verde claro, já são amarelas, o sub bosque é pobre porque as plantas bravas do seu ecossistema já não aparecem, nem os pássaros, a atestar o empobrecimento do conjunto e a ausência de água no solo, dada a envolvente de eucaliptal que lhe retira a água que lhe pertenceria, que retira água e vida e desenvolvimento, anunciando assim a morte em directo do que em breve irá acontecer, talvez para justificar o seu “abate” por estarem velhos e podres, esta árvore mais do que centenária e fonte de silêncio e beleza e por fim de bens para as economias pois que sem natureza não há economia a prosperar e não consta que desertificando se encontre petróleo.

A ONU já revelou que em 2050 não haverá água potável para toda a população mundial e, em cada lugar da terra, a água potável é a maior riqueza pois que sem ela nem indústria haverá, mas apenas morte e, quem sabe se em breve a guerra entre os homens deixará de ser o petróleo, mas sim a ÁGUA? – veremos bem cedo que assim será.

E, para já, o aumento de preço da água canalizada aumenta a quantidade de água disponível? E será de direito a água de quem a pode ainda pagar? E será de direito esconder a quantidade que se perde nas canalizações de captação e distribuição? E será de direito o uso da água armazenada em barragens para desporto motorizado e poluente? Valerá perguntar o que são direitos e deveres de Cidadania? E se teremos de ter algum “ensino-especial” para os aprender e fazer aprender?

Valerá a pena?
Por mim, esta sabedoria ainda existe, mas apenas, nos analfabetos-ignorantes-rurais que vão morrendo e envelhecendo e com eles desaparecerá a ética e estética das paisagens que as universidades não sabem ensinar, para além de outros conhecimentos que a Cidade despreza.

Acabei!

Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Lisboa - Bairro de Santo Amaro
Setembro 29 – 2006 + Fevereiro 11-2007 + Abril 04-2007 (COR)
Revisto e ilustrado para publicação no Infohabitar em 2007-04-06 (ABC)
Editado no Infohabitar em 2007-04-19 (JBC)

Sobre Alvalade, um comentário – de Pedro Taborda - Infohabitar 135

 - Infohabitar 135


O Bairro de Alvalade, que tem por base o " Plano de Urbanização da Zona Sul da Avenida Alferes Malheiro", de autoria do arquitecto Faria da Costa ainda nos anos 40, é um verdadeiro laboratório de propostas habitacionais (mais de 25 anos de período de urbanização).

As várias unidades de urbanização constituem estrutura urbana de raiz projectada por vários arquitectos mas com o acompanhamento do autor do plano, permitindo por esse motivo uma forma de planear aberta, aferindo as diferentes fases, evoluindo de acordo com as exigências da arquitectura, pela forma nas unidades morfológicas projectadas tendo em conta os aspectos ambientais, culturais, lúdicos e desportivos.

Nesta oportunidade, seria então reivindicada a renovação dos conceitos arquitectónicos e urbanísticos, segundo os princípios racionais da arquitectura moderna internacional, ainda que nos anos posteriores à realização do “ 1ª Congresso Nacional de Arquitectos” em 1948 o desejo de afirmação entre nós de uma arquitectura moderna, fosse marcado ainda com as imposições de uma pretensa arquitectura nacionalista, há muito imposta pelo regime, à imagem das primeiras casas de renda económica de 45 no exemplo das células I e II pelo Arq. Miguel Jacobetty.

Em todo o caso, nas várias células e Planos de Detalhe apresentavam já na primeira fase, de influência francesa, uma clara visão de complementaridade social: habitação a custos controlados; espaços livres e zonas de equipamentos primários, serviços públicos e comércio, apresentando também projectos-tipo para blocos de habitação que nelas se integravam.

Patente estes fundamentos ainda na primeira proposta, abandonando a caracterização minuciosa do desenho urbano, em detrimento dos novos conceitos que estabeleciam claramente o esquema viário e o zonamento de preenchimento menos especificado; posteriormente o bloco de habitação colectiva em altura integra a manifestação de uma linguagem moderna apoiada nas novas técnicas, resolvendo os problemas da necessidade de habitação na ideia da “rua corredor”, ao sabor da Carta de Atenas e dos cinco postulados de Le Corbusier.

Em todos os casos o Bairro de Alvalade constitui-se como paradigma do urbanismo Português: demonstra-se o claro interesse expresso em fazer cidade, perceptível numa ideia de conjunto em criar motivação ao modo de vida consentâneos com os aspectos sociológicos ao tempo, a revisitar várias vezes como lição do desejo da arquitectura experimentar as novas soluções urbanísticas e assim fazer vivenciar a possibilidade da abertura do poder Público e das suas Instituições à defesa quer do interesse colectivo do espaço colectivo, quer da coesão social, visando a concepção de modelos para o planeamento das áreas de expansão das cidades.
Face ao crescimento que a cidade nos revela actualmente, o esquecimento a que foram votadas as experiências urbanas de grande qualidade como as do Bairro de Alvalade conduziram ao preterido e à falta de qualidade reveladas no primarismo de conceitos que traduz a fraca formação técnica daqueles que efectivamente construiriam as cidades: quer renegando a validade em assimilar o conceito de projecto-tipo, quer renegando os conceitos urbanísticos no desenvolvimento dos programas de planeamento dos destinos das cidades. E este esquecimento é de uma enorme gravidade para todos nós.

sexta-feira, abril 13, 2007

Cidades desejadas e seguras (I): o problema da habitação tornou-se o problema da cidade – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 134

 - Infohabitar 134

( palavras chave: cidade, segurança urbana, urbanismo, cidade habitada, fazer cidade com habitação, arquitectura cívica, humanização, vitalização, periferia, bairros inseguros, bairros perigosos)

Cidades desejadas e seguras (I):

o problema da habitação tornou-se o problema da cidade


O subtítulo deste artigo é uma frase do Arq.º Luis Fernández-Galiano, retirada de um dos seus excelentes editoriais na revista espanhola “Arquitectura Viva” (n.º 97), expressivamente intitulado, “Habitação sem cidade” (“Vivienda sin ciudad”). Foi aí que ele sintetizou, e muito bem, que “ o problema da habitação se tornou o problema da cidade.”

Fernández-Galiano explicou esta ideia, ao referir que ”durante o século XX, a transformação urbana provocada pela mecanização da agricultura e os fluxos migratórios do campo para a cidade provocaram o chamado «problema da habitação»... No princípio do século XXI, e no contexto do mundo desenvolvido, o alojamento não é já uma preocupação quantitativa ou sanitária, mas sim qualitativa e ambiental: garantidas as dimensões mínimas, a ventilação eficaz e a saudável insolação, a habitação contemporânea padece de mediocridade visual, programas rotineiros e envolventes anorécticas.”



E concluiu salientando que. “A habitação não é hoje um problema que precise de experimentações estéticas ou inovações estilísticas; é um problema urbano, da civitas ou da polis, o que quer dizer, um problema de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas, acima de tudo, precisamos de mais cidade.”



Fig. 01

Aponta-se que o presente texto teve como motivação, mais directa, um excelente artigo saído em 7 de Abril de 2007, no semanário Expresso, sobre as condições de insegurança urbana num número significativo de “bairros sociais” e de outros bairros citadinos ou periféricos na Área Metropolitana de Lisboa; o artigo é de Valentina Marcelino e Jorge Simão e intitula-se “Alto risco na zona oriental - Número de bairros violentos sobe 50%”, e logo em destaque o artigo salienta: “Autoridades evitam a força face ao aumento do crime violento. Preferem estudar os bairros e criar vínculos”.

Importa referir, desde já, que a ideia que baseou o presente texto foi desenvolver, a partir de algumas ideias presentes naquele artigo, uma aproximação muito global e eficazmente informal aos aspectos de segurança e insegurança urbana. No entanto há que confessar que, à medida da elaboração foi este mesmo texto “fugindo” das matérias mais específicas da segurança urbana, às quais havemos de voltar em breve e de forma atenta e o mais possível completa, para uma perspectiva que encara a cidade como sítio que desejavelmente proporciona o espaço mais adequado e mais naturalmente protector das actividades humanas e designadamente daquelas que mais exigem em termos de adequadas condições de exercício; como será a possibilidade da fácil escolha entre o convívio e a privacidade e entre a animação e o sossego.

E diria mesmo que é este livre e agradável arbítrio, caldeado com a riqueza cultural, a diversidade da imagem urbana e a existência de empatia entre espaços urbanos habitados e os seus habitantes, que constituem um conjunto de condições de vida diária fortemente propiciadas por partes de cidades naturalmente seguras, porque agradavelmente envolventes, conviviais, vivas e apropriadas.



Fig. 02

Não é, no entanto, possível deixar de sublinhar, que, infelizmente, em Portugal, os aspectos quantitativos associáveis à qualidade do habitar e à qualidade da cidade não estão ainda resolvidos, seja porque os velhos problemas, como os “bairros de barracas” ainda persistem pontualmente, seja porque outros problemas estão aí bem presentes; alguns deles velhos, como a sobre-ocupação e a vetustez de partes do parque habitacional e outros novos e associados, por exemplo, seja à imigração, seja à “nova” pobreza urbana, que tem muitas facetas, mas onde se salientam os sem-abrigo. E como se verá, ainda que sinteticamente, muitos destes aspectos têm ligações fortes com as questões da cidade bem, ou mal, habitada, bem, ou mal, desenhada.

E talvez que a questão fundamental da cidade de hoje esteja aqui nestas questões do melhor ou pior habitar, portanto da maior ou menor vitalidade urbana – e atente-se que se fala de vida urbana não de bairros-dormitório –, e do melhor ou pior desenho do habitar – e sublinha-se que aqui desenho se refere à concepção arquitectónica num sentido verdadeiro, portanto amplo e bem fundamentado.

Um outro aspecto a ter em conta como base de todas estas reflexões é a questão de para quem se faz cidade e habitação. Uma questão que parece evidente, mas que perde essa evidência quando visitamos conjuntos ditos residenciais onde o automóvel é rei e onde, por vezes, existe um quase total divórcio entre o interior do conjunto e a sua envolvente “dita” urbana. São questões fundamentais estas e que devem ter resposta, pois assim como não se fazem habitações com as características de arquivos e arrumações industriais, porque aí vivem pessoas, com as suas necessidades e os seus hábitos; também o espaço público não pode ser feito para o veículo e para a simples passagem de infraestruturas, tem de ser feito com, pelo menos, dois objectivos fundamentais:

(i) O espaço público tem de ser feito para a pessoa a pé, para a pessoa a pé que precisa de ser devidamente apoiada em termos funcionais, acompanhada e motivada em termos urbanos, estrategicamente abrigada do sol a mais e da chuva, estrategicamente relacionada com as outras pessoas e com as actividades urbanas, e estrategicamente orientada e dotada de condições de visibilidade de segurança e de auto-controlo espacial – e atenção que o perfil do cidadão tem de ser pensado e realizado à escala da criança e do velho; caso contrário para quem é que se está a fazer cidade?



Fig. 03

(ii) E o espaço público tem também de ser feito para a cidade, para a cidade como construção comum e representativa da nossa cultura e aqui se irá exigir mais, mais desenho, mais qualidade, mais trabalho, mais imaginação, mais cuidado, pois a cidade é memória e será memória e ninguém pode viver sem memória ou com uma memória corrompida ou deturpada.



Fig. 04

Dito isto, afirma-se que construir um espaço público como esse, um espaço de vivência de uma cidade que seja como que uma grande casa, da qual gradualmente vamos conhecendo os mais pequenos recantos e os aspectos mais sugestivos e os pormenores mais subtis e marcantes, uma grande casa feita para uma grande diversidade de habitantes e de usos, é uma construção que exige uma elevada qualidade de concepção; e tal como referiu Charles Moore, em um dos seus textos, estamos ainda a procurar garantir a esta escala urbana habitada a qualidade que já atingimos no edifício isolado.; são, realmente, em muito maior número os “grandes” edifícios do que os “grandes” conjuntos urbanos, e são estes os grandes protagonistas da cena urbana, não tenhamos dúvidas.

Mas dá vontade de dizer e mesmo de repetir e de sublinhar que uma tal procura da qualidade à escala urbana habitada tem de começar a chegar, obrigatoriamente, hoje em dia, e de forma sistemática, a resultados claramente positivos, pois não é mais possível continuar a destruir tanto do que outrora foi bem feito e a construir tanto e tão mal feito, e designadamente a esta fundamental escala urbana vitalizadora de relações coesas de proximidade e de relações estruturantes de uma cidade viva.

Para tal é muito urgente e necessário que a arquitectura seja feita por arquitectos, mas tal condição não chega para o referido objectivo; há que exigir, também aos arquitectos, que a qualidade da sua arquitectura tenha verdadeira valia urbana e humana, há que exigir uma verdadeira qualidade de desenho pois queremos voltar a fazer cidade culturalmente fundamentada, humanizada e atraente, uma cidade que nos orgulhe e onde gostemos realmente de viver e conviver.



FIg. 05

Lembremos, agora, que o fazer cidade viva que apoie funcionalmente, estimule e proteja o peão é fazer cidade mais segura, seja nas questões ligadas à urgente negação das vias que são pistas de automóveis – e depois de o serem, então, marcam-se com sinais de controlo da velocidade e outras medidas de redução da mesma -, seja na criação de partes de cidade com continuidade urbana e de actividades, estruturadas por percursos agradáveis, memorizáveis, acompanhados por actividades e funções que vão polarizando as suas sequências de espaços.

E só assim teremos cidades que, física, funcional e ambientalmente, propiciem segurança urbana; uma segurança que mais do que sentida directamente, estará, naturalmente embebida num meio urbano que nos satisfaz e nos atrai e que, consequentemente, é factor de uso mais intenso do espaço público, sendo assim factor de convívio e de potencial de ajuda mútua – condições estas também fundamentais para a segurança urbana, mas antes disso, e na base disso, para a construção de uma verdadeira cidade do encontro e da comunidade.

Afinal, e tal como referiu Jane Jacobs (“Morte e vida das grandes cidades”, 1961), há que ter em conta que “a ordem pública não é mantida basicamente pela polícia... É mantida fundamentalmente pela rede intrincada de controlos e padrões de comportamento espontâneos… e o problema da insegurança não pode ser solucionado pela dispersão das pessoas... Numa rua movimentada consegue-se garantir segurança; numa rua deserta não…”

Que isto não seja entendido como a negação da importância dos serviços de segurança, mas estes mesmos serviços têm de avançar e têm avançado no sentido da acção de proximidade e do apoio específico e diário à qualidade de vida; temas a que voltaremos em próximos artigos e a propósito lembremos que já no referido artigo no Expresso se indicava que as “autoridades evitam a força ... Preferem estudar os bairros e criar vínculos.”



Fig. 06

É, sim, fundamental que as sábias e pioneiras palavras de Jane Jacobs sejam literalmente entendidas, como relevadoras da vital importância de uma cidade com continuidades urbanas e com regularidades urbanas “correntes”, como são (por exemplo) os enfiamentos e as sequências de ruas, as esquinas habitadas, as correntezas de edifícios com entradas bem ligadas à rua e bem assinaladas e apropriadas, as montras de lojas atraentes e regularmente distribuídas, as pracetas acolhedoras que integram pequenas esplanadas, as excelentes galerias comerciais que tornam os troços citadinos mais coesos, e, naturalmente, uma escala urbana que privilegie edifícios não muito altos nem muito grandes, capazes de proporcionarem muitos desses acontecimentos urbanos vitalizadores e muitas janelas de habitações não muito longe do que se passa na rua.



Fig. 07

Pelo contrário, se pensarmos na negação de muitos desses aspectos de forma e função urbana, deixamos de ter cidade com continuidades públicas, e até por vezes deixamos de ter ruas minimamente coesas, e deixamos de ter esquinas que marquem ritmos e funções de percursos, e assim, o pouco comércio que aí tentará sobreviver, pode ir morrendo, instalando-se uma espiral de desvitalização e de abandono do espaço de uso público; e aí, em “ruas” desertas, não é possível garantir segurança, e, mesmo antes disso, não é possível proporcionar conforto e gosto de habitar, porque antes da insegurança e em parte da sua génese está o desamor pelo espaço público e pelo sítio que se habita, afinal defendemos muito mais, ou só defendemos, aquilo de que gostamos, aquilo de que nos apropriamos.

Assim voltamos ao tema “nuclear” deste artigo: “o problema da habitação tornou-se o problema da cidade” e, muito provavelmente, o problema da insegurança no habitar tornou-se no problema da insegurança na cidade. Uma insegurança no habitar que radica também em condições de habitar e de vida urbana pouco humanizadas, pouco ligadas ao que a cidade pode e deve proporcionar de positivo e de diversidade funcional e cultural. E acresce, hoje em dia, a esta problemática que os principais problemas da cidade de hoje são os das megacidades, matéria pertinente que também fica para outros artigos, mas, sobre a qual, desde já, se sublinham as virtualidades das vizinhanças de proximidade e dos pequenos conjuntos urbanos como elementos de manutenção da escala humana e de dinamização estratégica e reforço da coesão, também, nas grandes urbes.



Fig. 08

Em toda esta matéria não devemos nunca considerar de forma menos atenta e adequada a questão real da insegurança, tal como ela é sentida, “na pele”, infelizmente, em tantos casos que, depois, surgem na comunicação social, por exemplo em artigos como o de Henrique Machado, no Correio da Manhã de 6 de Março de 2005, onde sob as palavras “Bairros de crime”, o jornalista refere que eles “fazem lembrar territórios sem lei, onde mandam os senhores do crime que trazem em pânico moradores que ainda resistem à marginalidade.”

E há, também, que reflectir sobre os parâmetros que baseiam a construção das listagens dos bairros “perigosos”, onde se conjugam, por exemplo (caso do estudo referido pelo artigo que saiu no Expresso), “condicionantes arquitectónicas e densidade populacional”, com “número de residentes com antecedentes criminais, número de casos de desordem pública, número de agressões a elementos policiais e número de casos de crimes praticados por residentes fora do bairro”. E há que reflcetir sobre estas matérias, porque se considera que, na base de tudo está, evidentemente, o desenho urbano e habitacional ou, frequentemente, o não-desenho – no sentido de concepção urbana integrada (neste caso desintegrada) – que marca tantos dormitórios suburbanos. E um não-desenho ao qual se associa uma não-cidade em termos sociais, porque socioculturalmente homogénea e desintegrada.

E aqui é já possível afirmar que seria muito acertado realizar um estudo prático deste universo da nossa vergonha urbana e para ele tentar e aplicar, de forma expedita, as melhores receitas para lhes aumentar urgentemente a qualidade de vida e naturalmente lhes reduzir a insegurança e a intolerância; e um tal estudo também ajudaria a não repetir e, provavelmente, a remediar os erros urbanísticos, como ainda vai acontecendo, embora menos frequentemente do que aconteceu, entre nós, designadamente, no período entre o início dos anos 70 e meados dos anos 80.

Há que dizer, de uma vez, que muitos conjuntos de edifícios onde muitas famílias e pessoas isoladas vivem, em periferias citadinas sem vida, não são mais do que “edificação habitacional”, não são nem cidades, nem partes de cidade, nem casas, nem partes de casas. São elementos humana, citadina e ambientalmente negativos com dimensão excessiva, são tipos de edifícios por vezes inteiramente inadequados a quem lá habita – quando são “tipos” de edifícios e não apenas construções com uso habitacional –, são espaços exteriores pouco acabados, mal acabados ou mesmo quase inexistentes em termos de funções e de forma pública, e são afinal sítios, que não são sítios, sem identidade e sem cidade, seja por falta de continuidade urbana, seja por falta de transportes públicos, seja por falta de desenho (concepção); seja, finalmente, por vezes, por falta de tudo isto, e, tantas vezes, numa má mistura física tornada realmente patológica, quando contém uma mistura social que nada tem da normal e rica diversidade sociocultural da cidade.

Lembram-se as impossíveis misturas habitacionais que só integram grupos socioculturais com diversos tipos de carências e de problemas de integração, como se uma verdadeira parte de cidade pudesse viver assim, truncada de parte do seu sangue. E se tudo aquilo que aqui não há é essencial para que a cidade se faça com habitantes e habitação, aqui não se faz cidade, e na ausência de cidade quem lá mora fecha-se em casa, o último reduto, enquanto as ruas “fazem lembrar territórios sem lei”.

Conclui-se, como se começou, com palavras de Luís Fernandez-Galiano: “A habitação ... é um problema urbano, da civitas ou da polis, isto quer dizer, de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas acima de tudo precisamos de mais cidade.”



Fig. 09

Em próximos artigos desta série, estruturada pelo tema “o problema da habitação tornou-se o problema da cidade”, serão considerados, entre outros, os aspectos de urgência e de complexidade imbricados nestas matérias da negação social da “não-cidade” e da insegurança de que essa não-cidade é sítio próprio; e desde já se afirma que, evidentemente, o ambiente físico e arquitectónico é apenas um dos factores aqui em jogo, mas, no entanto, é em casas com paredes de “pedra e cal” e em ruas com correntezas de edifícios com janelas reais que se vive e se trabalha, e, portanto, será sempre do quadro físico que se terá de partir e ao quadro físico que se terá de chegar nesta urgente e pacífica batalha.

Ao contrário do que é já um hábito que se acarinha no Infohabitar, as imagens que ilustram o corpo deste artigo não foram especificamente identificadas, quer relativamente aos sítios “visitados”, quer relativamente aos respectivos autores projectistas. Pretendeu-se desta forma chamar mais a atenção para o fio de pensamentos no texto e menos para tais referências. No entanto escolheram-se, premeditadamente, apenas bons exemplos de habitação que faz cidade e de cidade viva e qualificada, portanto amada e tendencialmente segura, exemplos estes apurados em diversos bairros de Lisboa, entre os quais se destacam os sempre incontornáveis Alvalade e Campo de Ourique e os também sempre incontornáveis e mais recentes Tellheiras e o “velho” excelente Alto do Restelo da EPUL.



Fig. 10

Como se verá, em próximos artigos desta série sobre os tão imbricados problemas da habitação e da cidade, mais do que de uma tipologia habitacional e urbana específica, a qualidade do habitar uma cidade viva depende, numa primeira linha, da verdadeira e bem fundamentada qualificação do seu desenho, numa segunda linha, de preocupações específicas com aspectos de definição e responsabilização territorial e, em linhas paralelas, depende de se visar uma verdadeira parte de cidade convivial e com diversidade sociocultural, aspectos estes que, por sua vez, tem de interagir com a concepção da forma-função. Mas estes são aspectos que terão de ficar para próximos artigos.
Lisboa, Encarnação, 11 de Abril de 2006


Edição: José Baptista Coelho

sexta-feira, abril 06, 2007

Análise arquitectónica residencial do Bairro de Alvalade e designadamente das suas “células sociais” – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 133

 - Infohabitar 133

Análise arquitectónica residencial do Bairro de Alvalade e designadamente das suas “células sociais”


Tal como tinha sido referido no último artigo editado no Infohabitar e intitulado “Sobre o Bairro de Alvalade de Faria da Costa: um exemplo bem actual de sustentabilidade urbana e residencial”, faz-se, em seguida, uma análise arquitectónica residencial sistemática bastante dirigida para as suas “células sociais”.

A análise é realizada cumprindo-se uma grelha de ponderação desenvolvida no estudo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e tese de doutoramento do autor, pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), intitulado “Qualidade Arquitectónica Residencial: Rumos e factores de análise”, editado no LNEC em 2000 (disponível na Livraria do LNEC com o n.8 da Série Informação Técnica Arquitectura, ITA).




Fig. 0

A referida grelha de análise aponta os seguintes conjuntos de rumos qualitativos da qualidade arquitectónica residencial:

  • acessibilidade e comunicabilidade;
  • espaciosidade, capacidade e funcionalidade;
  • agradabilidade, durabilidade e segurança;
  • convivialidade e privacidade;
  • adaptabilidade e apropriação;
  • atractividade, domesticidade e integração.
E, assim, em seguida, e praticamente sem comentários faz-se a análise referida ao Bairro de Alvalade, em Lisboa, projectado por Faria da Costa. Sublinha-se, apenas, que os diversos níveis físicos (Área Residencial, Vizinhança Próxima, Edifício, Habitação) são registados de forma evidenciada e que esta análise foi realizada no âmbito do referido estudo do LNEC.

Factores de relação e de contacto entre espaços e ambientes – Acessibilidade e Comunicabilidade.



Fig. 01

Acessibilidade


- Área Residencial compartimentada por arruamentos principais ligados à Cidade.

- Desde o início da ocupação a Área Residencial foi servida por autocarros, comboios e carros eléctricos; mais tarde estes últimos foram eliminados, mas entretanto o "Metro" foi abrindo várias estações na zona.

- Acessibilidade favorecida por percursos cómodos, cuidadosamente distribuídos, pouco numerosos e pouco extensos (grandes extensões ritmadas por pólos e acidentes de percurso positivos), sendo os principais apenas cruzados no indispensável.

- Vias de acesso local com redução da faixa de rodagem, mas sem redução de largura entre edifícios.

- Acessibilidade estruturada por células residenciais em torno de Escolas Primárias, com raio de influência máximo de 500m; dá vontade de dizer que há ainda aspectos urbanos, que, como este, são fundamentais em termos de um privilegiar, naturalmente, a “apresentação” da cidade aos mais jovens.

- Rede de veredas pedonais através de logradouros, possibilitando o “sentir” profundo do sítio que se habita.

- Impasses rodoviários, mas prolongados e inter-ligados por veredas pedonais.

- Boa parte dos Edifícios com acessos alternativos.

- Fogos com um mínimo de espaços desaproveitados, por rentabilização de Área útil e nomeadamente por ordenação das comunicações e redução de percursos no interior da Habitação.

- Na estruturação da Habitação realizou-se uma concentração de superfície livre (desimpedida após a instalação de mobiliário padrão) de modo a atingir-se cada recanto com o mínimo gasto de energia, para além de se obter um melhor ordenamento geral.



Fig. 02

Comunicabilidade


- Comunicabilidade com a cidade por 4 fronteiras bem definidas e assinaladas por pólos de comunicabilidade/acessibilidade bem identificáveis.

- Comunicabilidade com o comércio interno (vida interior do Bairro) em vias comerciais, conjugadas entre si e com o exterior, fortemente caracterizadas e agradavelmente usáveis pela pessoa a pé..

- Comunicabilidade entre ruas muito animadas e ambientalmente diferenciadas (diversos espectáculos urbanos), através de interiores de quarteirões residenciais sossegados e ao longo de impasses rodoviários inter-ligados por veredas pedonais; é a lógica pura do "caminho secreto", mas seguro, aplicada e provada na prática.

- Comunicabilidade do edifício com sua respectiva envolvente (Vizinhança Próxima/Edifício) por zonas frontais e de traseiras, adequadamente ocupadas e usáveis para actividades determinadas.

- Comunicabilidade no interior da Habitação por zona social evidenciada e central.

- Comunicabilidade entre interior da Habitação e exterior por janelas de sacada e varandas com guardas "transparentes".

Factores de caracterização e de adequação de espaços e ambientes – espaciosidade, capacidade e funcionalidade.




Fig. 03

Espaciosidade


- Basta dizer que ainda hoje a malha urbana funciona bem depois de várias adaptações viárias, aspecto este bem associável a uma adequada e equilibrada espaciosidade, que sem ser excessiva e sem quaisquer riscos de redução de uma agradável continuidade urbana, tem proporcionado profundas conversões funcionais ao nível viário, mas sem se arriscar a fundamental predominância pedonal.

- Espaciosidade perfeitamente hierarquizada, ao nível exterior, desde os largos passeios comerciais até aos estreitos passeios dos impasses residenciais contíguos a quintais privados e às largas veredas pedonais nas traseiras dos edifícios.

- Espaciosidade mínima ao nível dos espaços comuns dos edifícios habitacionais.

- Espaciosidade mínima mas bem equilibrada nas habitações, onde se destacam os quartos de casal espaçosos e quadrangulares e uma assinalável adaptabilidade dos compartimentos a diversos usos (o que implica uma espaciosidade multifuncional).




Fig. 04

Capacidade


- Em termos globais o Bairro tem cerca de 230 Ha, com uma densidade global ("bruta") de cerca de 200 habitantes/Habitação (cerca de 45000 habitantes na totalidade), alojados em edifícios uni e multifamiliares, sendo grande parte destes de baixa altura.

- Em termos gerais o Bairro tem uma evidente e forte capacidade residencial, mas nesta funde-se, com naturalidade, uma importante capacidade comercial, bem como uma significativa capacidade em termos de grandes equipamentos colectivos, e ainda uma interessante capacidade ligada à pequena indústria e ao artesanato; e tudo foi adequadamente desenhado, para além de previsto em termos globais, e, assim, por que foi bem pensado e “desenhado”, todas estas capacidades se associam fazendo cidade, e portanto, sem criar habitação “sozinha” nem funções, edifícios e espaços mutuamente desagregados; trata-se, portanto, de uma capacidade coesa e urbana.

- Em termos viários continua a funcionar com fluidez, ainda que com um número actual muito elevado de veículos (circulando e estacionando).

- Quanto à Habitação foram considerados os posicionamentos dos móveis fundamentais e integrados armários na construção, sempre que possível.




Fig. 05: Alvalade, Planta de apresentação, 1945, Arquivo Municipal de Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa.


Funcionalidade


- Várias zonas bem evidenciadas e com serviços diferenciados muito próximas das habitações.

- Zonas pedonais úteis e com variadas atribuições funcionais, estrategicamente coordenadas com as zonas de veículos.

- Soluções práticas de harmonização do tráfego de veículos com o estacionamento de longa e curta duração. Naturalmente, hoje em dia há dificuldade de estacionamento, mas julga-se que um maior controlo dos veículos dos não-residentes poderá melhorar muito as condições de funcionalidade de quem reside e a agradabilidade no uso pedonal de Alvalade.

- Ao nível da Habitação há um máximo de aproveitamento da Área Útil (cozinha, sala e quartos), com um máximo de comodidade da vida doméstica, mediante características de boa afinidade geométrica e correlação entre os compartimentos do fogo.

- O reduzido número e a semelhança entre as soluções de fogo utilizadas em boa parte dos edifícios multifamiliares (12 soluções muito idênticas, entre si) permitiu a sua optimização funcional (e em termos de custos). E, no entanto, mercê de uma razoável diversificação tipológica nas “avenidas”, da introdução estratégica de “novas arquitecturas” e mesmo da variação da pormenorização das células sociais (implantação de edifícios e cuidadoso desenho das fachadas), não se sente uma repetição excessiva das soluções.

Factores de conforto espacial e ambiental – Agradabilidade, Durabilidade e Segurança



Fig. 06

Agradabilidade


- Sossego e abrigo (sombreamento, protecção eólica) das ruas e impasses residenciais; é interessante anotar que a simples possibilidade de opção entre os dois lados da mesma rua, com idênticas condições de espaciosidade e equipamento, é um excelente factor de agradabilidade no exterior público.

- O peão encontra abrigo ao longo da rua, seja por prolongamentos do edificado, seja por árvores de arruamento; e não sofre descontinuidades nesse abrigo.

- O verde urbano encontra-se agradavelmente disseminado pelo Bairro e em grande proximidade com as Habitações.

- A agradabilidade joga-se numa constante mistura de aspectos físicos e psicológicos e nesta matéria a ligação directa com a escala humana, bem marcada em entradas, passagens, perfis de ruas e formas gerais de outros espaços urbanos, é um elemento importante de expressão de abrigo e de protecção.

- Um aspecto fundamental da agradabilidade residencial é o apoio directo à movimentação e aos usos pedonais, que aqui em Alvalade é evidente nos largos passeios de calçada e nas longas continuidades de “passeio” que eles permitem.

- Habitações rectangulares proporcionando, quase sempre, luz e ventilação natural e cruzada a todos os compartimentos, sem recantos sombrios e húmidos.




Fig. 07

Durabilidade:


- Caminhos pedonais (veredas) bordejando quintais privados, assegurando-se, assim, o seu bom estado de manutenção; nos poucos casos em que estes caminhos não foram concretizados é bem evidente a deterioração do aspecto.

- Usufruto público de boa parte do "verde" privado, sem custos de manutenção pública; nas condições referidas na anterior característica.

- Edifícios não parecem exigir cuidados especiais de manutenção; e como a estrutura urbana define quarteirões, a boa aparência pública refere-se, na maioria dos casos, essencialmente, aos conjuntos de fachadas principais, constituindo ruas e impasses residenciais.

- Pequenos edifícios, pouco altos, pouco recortados, com espaços comuns reduzidos ao mínimo e com um número mínimo de vizinhos, configuram também soluções fáceis de gerir em termos de uso corrente e de acções de manutenção.

- Dá vontade de comentar que há determinados processos de construção e de acabamento que oferecem excelentes e prolongadas condições de uso sem necessidade de cuidados especiais de manutenção.




Fig. 08

Segurança


- A segurança urbana baseia-se num forte e natural controlo das actividades desenvolvidas nas ruas e interiores de quarteirão, proporcionado por uma estrutura urbana contínua, sem espaços "mortos" e com longos troços acompanhados ("vigiados") por estabelecimentos comerciais. De certa forma a referida continuidade urbana, bastante pontuada por actividades térreas (comércio e serviços) é o primeiro elemento da segurança urbana.

- Um outro aspecto fundamental na segurança que se prepara pelo desenho que se aplica a um dado tecido urbano e residencial é estruturar este tecido seja a partir de afirmados núcleos habitados, seja a partir de afirmados pólos residenciais e comerciais, num contínuo urbano profundamente marcado pelas proximidades, entre casa e rua, entre “café” e rua, entre rua animada e rua sossegada, entre transportes e espaços para andar a pé. “Fabricam-se, assim, relações urbanas mais até do que elementos físicos urbanos e ao se actuar-mos assim estamos a garantir a normalidade e agradabilidade da vida diária, que é o melhor factor de segurança.

- Um aspecto que se liga à “teia” de relações urbanas que se acabou de referir, mas que tem aspectos específicos a salientar é que a cidade não deve ter quebras nas continuidades dos seus percursos e sequências de vida, mas, pelo contrário, também não pode ser feita de um excesso de liberdade de relações e de possibilidades de percursos. Há que recintar espaços, há que definir e pontuar um conjunto limitado e cuidado de percursos e ao assim actuar evita-se uma negativa e insegura anarquia de movimentação no espaço dito urbano, pois ruas relativamente estreitas, marcadas por esquinas habitadas e quase sempre acompanhadas por janelas e montras, são garantes de segurança urbana – e evidentemente tudo isto pode ser visto em Alvalade.

- No que se refere à segurança pedonal relativamente ao tráfego automóvel, os abundantes cruzamentos e entroncamentos viários ortogonais, e o associado ritmo intenso de passadeiras pedonais, obrigam a um trânsito de veículos lento e atento. Hoje em dia percebe-se um crescendo da naturalidade na acção de se dar prioridade aos peões e assim se vai construindo uma cidade realmente mais amiga de quem anda a pé, dos seus ritmos e das suas sequências de usos funcionais e de lazer; mas uma tal naturalidade só é real em cenários urbanos como estes, em que o automobilista sabe que após uma dada passagem de peões, e a poucos metros outra passagem existe, desta forma para ele não faz sentido acelerar, mas sim continuar atento e prepara-se para parar novamente, pois está em território do peão, e ao ritmo do peão.

Factores de interacção social e de expressão individual – Convivialidade e Privacidade




Fig. 09

Convivialidade


- Cerca de 3/4 de fogos sociais e os restantes "de renda não limitada".

- Rejeição de segregações por fomento da coexistência de diferentes grupos sociais no interior de cada "célula" para cerca de 5000 habitantes.

- Manutenção de características de homogeneidade social em sub-células com cerca de 500 fogos.

- Foram aplicados diversas tipologias de “habitação social”, caracterizadas por uma ampla diversidade de número de compartimentos.

- Os fogos “não sociais” e as lojas financiaram, em parte, as “habitações sociais” e acompanham os principais eixos de tráfego e comércio do bairro.

- Simultaneidade entre conclusão de “fogos sociais”, habitações de renda livre e faixas comerciais (integradas nos edifícios residenciais com fogos de renda livre).

- Principais pontos de ligação à cidade realizados "à cabeça" (exº Praça do Arieiro, e conjunto residencial contíguo ao Campo Grande).

- Variados tipos de Transportes Públicos.

- Equipamentos e zonas para equipamentos perfeitamente integrados com a habitação e assegurando a continuidade urbana.

- Veredas pedonais contíguas a quintais privados e com excelentes relações visuais mútuas.

- Vizinhança Próxima(s) claramente configuradas e limitadas, em ruas e impasses residenciais.

- Ruas comerciais vivas, ainda em progresso, quase meio século depois de construídas, irrigando, em grande proximidade, um máximo de ruas residenciais e muito associadas a importantes eixos urbanos não excessivamente longos e pedonalmente muito agradáveis.




Fig. 10

Privacidade

- Tão importante como a vida urbana ainda hoje bem pujante nas avenidas de Alvalade, é que logo ali, atrás delas, há sossego e intimidade, seja em logradouros de condomínio, que têm diversos usos, seja em intimistas vizinhanças próximas, espaços públicos com carácter reservado e recintado, seja em muitos quintais e pátios privados.

- Desenvolve-se um apoio específico à privacidade no edifício e em casa, através da existência de pequenas jardinetas interpostas entre a rua e a fachada, e pelo abundante desenvolvimento de pequenos quintais privados. O dizer-se que muitos deles estão semi-abandonados é só uma meia-verdade, pois há que lembrar que a população está envelhecida e que mesmo assim esses espaços continuam a proporcionar uma essencial dimensão de privacidade.

- Privacidade relativa ("comum"/condominial) ao nível da Vizinhança Próxima; ruas e impasses residenciais sossegados e intimistas. Este é, provavelmente um dos grandes “pequenos” segredos de Alavalade, uma dimensão de “privacidade comum”, alargada às pequenas comunidades de vizinhos que habitam as agradáveis pracetas e impasses residenciais, que são os verdadeiros pólos de vida do Bairro.

- São importantes os contrastes fortes e próximos entre vida urbana animada e calma intimidade residencial; e sublinha-se que esta rica proximidade é muito bem tratada em termos de limiares de transição e de comunicabilidade.

- Um outro aspecto estruturador nestes elementos de privacidade é que espaços urbanos intimistas, veredas pedonais, jardinetas de transição entre passeio público e edifício e quintais privados são, todos, elementos que favorecem muito as condições de privacidade dos fogos térreos, dando-lhes também outras interessantes condições de habitabilidade (ex, relação directa com a terra e com o verde urbano); e tudo isto resulta numa forte densidade térrea habitada ou, por outras palavras, numa forte humanização do Bairro – sente-se que é um sítio habitado, quem lá passeia sente-o, mas isso passa-se sem intrusões graves na privacidade de quem habita próximo de quem passa. Este aspecto que se considera ser de grande interesse deverá merecer tratamento específico, hoje em dia, em relação com as exigências de acessibilidade.

Factores de participação, identificação e regulação – Adaptabilidade e Apropriação




Fig. 11: Exemplo dos estudos habitacionais desenvolvidos para Alvalade na Federação de Caixas de Previdência - Habitações Económicas, e apresentados pelo Arq. Miguel Jacobetty no 1.º Congresso Nacional de Arquitectura, em Maio/Junho de 1948

Adaptabilidade


- Adaptabilidade urbana extrema, tanto aos modos de vida, como à fortíssima pressão da evolução das exigências funcionais urbanas, ao longo do tempo. É interessante ponderar que a estrutura do Bairro e os seus principais elementos e troços urbanos parecem estar hoje em dia mais vivos do que nunca e muito funcionais, trata-se de uma solução ou de um conjunto de soluções que foi feito realmente para a escala temporal que uma cidade tem de ter, e uma cidade habitada. Nas suas “células sociais” os edifícios e as habitações de Alvalade já acolheram uma geração e preparam-se para acolher outra, é assim uma cidade habitada e viva.

- Adaptabilidade na Vizinhança Próxima, proporcionando a junção de garagens individuais e de equipamentos colectivos no interior dos quarteirões (exº, campo de jogos iluminado e vedado).

- Adaptabilidade ao nível da Vizinhança Próxima/Edifício permitindo desde extensões de estabelecimentos comerciais sobre os passeios contíguos, até às conversões de fogos térreos em lojas.

- Adaptabilidade das habitações, por existência de 3 categorias de espaciosidade, cada uma delas com 3 tipos gerais, conforme o número de quartos, mais algumas variantes (resultado de indecisões dos projectistas sobre quais as soluções a escolher); às várias categorias correspondem, não só, áreas diferentes, mas também diversos tipos de compartimentos (ex., escritórios e "quartos de criada").




Fig. 12

Apropriação


- Limites do Bairro suficientemente definidos e fundidos com a envolvente.

- Imagem geral forte e "una".

- Estrutura urbana clara, constituída por duas vias fundamentais, mais outras complementares e uma grelha residencial pedonal que acompanha, mas extravasa a rede para veículos; tudo isto rodeado por uma arquitectura com imagens perfeitamente integradas, mas continuamente variadas (diversidade na unidade).

- Continuidade urbana encaminhando principais percursos.

- Remates da estrutura urbana por praças e edifícios públicos assinaláveis.

- Vizinhança(s) Próxima(s) "personalizadas" em impasses, praças e pracetas residenciais equipados e marcados (exº, Torres de Relógio das Escolas).

- Quintais privados, mas com vista pública (basta ver o cuidado que é, ainda hoje (com a população muito envelhecida), investido no arranjo das sebes que delimitam os quintais.

- Floreiras integradas nos edifícios.

- Portas principais dos edifícios, sempre, evidenciadas e tratadas com especial atenção (mesmo nos casos de edifícios mais modestos).

- Elementos artísticos marcando algumas entradas e outras partes de edifícios.

Factores de aspecto e coerência espacial e ambiental – Atractividade, Domesticidade e Integração



Fig. 13

Atractividade

- Como comentário global e fundamental há que sublinhar que o que atrai em Alvalade não é tanto um dado edifício ou tipo de edifício, mas sim o “corpo” do Bairro, a forma como ele nos acolhe e se deixa percorrer e nos vai “divertindo” com o que nos mostra e nos dá; e neste corpo de Bairro há depois conjuntos de edifícios, espaços e verde urbano que também nos atraem, uns mais por certas razões e outros mais por outras, e até uns mais a umas horas e outros mais a outras. E também há, sem dúvida, edifícios e espaços que marcam, edifícios e espaços distintos e estruturantes. Mas o que mais atrai em Alvalade é, talvez, a pequena e coesa cidade que é Alvalade. Em seguida e com alguma informalidade apontam-se alguns aspectos mais particulares da atractividade de Alvalade.

- Soluções arquitectónicas muito dignas, simples e sóbrias.

- Doze tipos de edifícios com elementos de composição diferentes mas unificados, em termos de alturas e linguagens formais.

- Por vezes edifícios semelhantes, mas com pormenorizações diferenciadas.

- Uma agradável “convivência” de escalas e de texturas entre edifícios e verde urbano.

- Coexistência de edifícios uni e multifamiliares.

- Edifícios com distinção forte entre frente e traseiras.

- Edifícios com remates ao solo e superiores bem marcados.

- Edifícios com acessos claramente evidenciados.

- Faixas de lojas marcando os pisos térreos.



Fig. 14

Domesticidade


- Vizinhança(s) Próxima(s) com escala humana, baixa, protegida e sossegada.

- Ruas comerciais largas, mas com escala humana marcada por faixas de lojas, socos e entradas marcadas e protectoras.

- Continuidade urbana protectora.

- Dominância de edifícios baixos; edifícios altos marcando zonas mais animadas ou de relação com o exterior do bairro.

- Chaminés acentuadas, vãos habitacionais muito tratados, coberturas em telhado evidenciadas, fachadas bem rematadas.

- Tons de cor naturais ou quentes.

- Presença protagonista das árvores de arruamento, criando verdadeiros "tectos" rebaixadores da escala urbana e amenizadores das zonas construídas.



Fig. 15

Integração

- Integração forte, do conjunto do Bairro na cidade.

- Integração forte, das diversas Células residenciais no conjunto do Bairro.

- Zonas comerciais constituindo como que a "espinha dorsal" estruturadora do Bairro e em total integração com a habitação; proporcionando zonas de comércio com características diversificadas e complementares em condições de grande proximidade mútua.

- Zonas industriais/artesanais em articulação cuidadosa com as zonas residenciais, mas totalmente integradas no conjunto do Bairro.

- Integração do peão e do veículo, gerais e seguras, dominando o peão, tanto porque são muito numerosas as passadeiras de atravessamento de vias para veículos, como porque existem troços pedonais complementares e em grande conjugação com o restante sistema de percursos; e no entanto o tráfego de veículos é habitualmente fluído.

- Integração dos grandes equipamentos na continuidade urbana "normal" do Bairro, sem quaisquer descontinuidades.

- Integração dos principais pólos urbanos, evidenciados ainda mais, porque basicamente integrados.

- Integração do verde urbano (essencialmente protagonizado pelas árvores de arruamento), na continuidade ambiental do Bairro, onde se pode dizer que não existe um Parque ou um grande Jardim, nem se sente essa falta; há um parque recentemente melhorado, mas que é bastante periférico.

Breves notas conclusivas sobre a qualidade em Alvalade

Este artigo integra uma análise que foi feita para exemplificar um estudo feito e editado no LNEC, há poucos anos, sobre o que se pode entender pela qualificação arquitectónica residencial. No entanto e tal como sempre acontece, quando se mexe em “velhos” textos, aliás em parte não publicados, o resultado foi uma releitura e uma reinterpretação, menos dos textos em si, e muito mais do seu objecto, que era e é a análise da grande qualidade residencial e urbana bem evidente na malha de Alvalade em Lisboa. No entanto o resultado não quis ser uma alteração radical do trabalho então feito, mas sim um seu complemento relativamente informal e, quem sabe, daqui a mais alguns anos haja lugar a uma outra reinterpretação e a um outro complemento.

No entanto não seria possível deixar de salientar aqui que se julga de enorme importância, hoje em dia, este tipo de análises comentadas da qualidade arquitectónica residencial. Não é mais possível deixarmos que as nossas cidades e os nossos bairros continuem a crescer sem qualidade arquitectónica. Como inverter a tendência? Não sei, em pormenor! Mas é essencial que tudo seja feito, com o máximo cuidado, mas muito urgentemente com o objectivo de se impossibilitar ou de dificultar, ao máximo, que novas partes de cidade surjam sem qualidade de desenho e de uso. Para tal é muito urgente e necessário que a arquitectura seja feita por arquitectos, mas tal condição não chega para o referido objectivo; há que exigir, também aos arquitectos, que a qualidade da sua arquitectura tenha verdadeira valia urbana e humana, há que exigir uma verdadeira qualidade de desenho pois queremos voltar a fazer cidade culturalmente fundamentada, humanizada e atraente, uma cidade que nos orgulhe e onde gostemos realmente de viver e conviver.



Fig. 16

Alvalade, em Lisboa, como outros bairros e partes de cidade em Lisboa e em outras cidades de Portugal tem essa qualidade e por isso vale a pena falar e voltar a falar dos “mistérios” de Alvalade e dos “mistérios” dessas outras boas práticas de arquitectura residencial e urbana; não para voltar atrás no tempo, mas para lembrar que há processos colectivos de assegurar essa qualidade arquitectónica residencial e urbana, e se os há, eles são o exemplo vivo do que, como cidadãos, temos de exigir ao perfil qualitativo da nova cidade e da cidade que hoje se renova.

Com este artigo pretende-se contribuir para o conhecimento desse fundamental perfil qualitativo, nos seus diversos aspectos urbanos, habitacionais e sociais, desenvolvendo-se, assim, no Infohabitar, uma linha editorial de sistemática divulgação técnica das melhores práticas urbanas e habitacionais. E é bem provável que daqui a algum tempo aqui se reincida numa abordagem, então, provavelmente, mais “fina” e/ou mais específica dos excelentes “mistérios” deste e de outros conjuntos urbanos e habitacionais que honram, realmente, os seus habitantes e as suas cidades.

sexta-feira, março 30, 2007

Sobre o Bairro de Alvalade de Faria da Costa: um exemplo bem actual de sustentabilidade urbana e residencial – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 132

 - Infohabitar 132

Sobre o Bairro de Alvalade de Faria da Costa: um exemplo bem actual de sustentabilidade urbana e residencial 


Neste artigo, depois da apresentação e do enquadramento do Bairro de Alvalade, projectado pelo arquitecto e urbanista Faria da Costa, em Lisboa, fala-se do que se designa pelo “mistério” de Alvalade, nem mais nem menos do que o fazer cidade viva com habitação, depois aborda-se este bairro como exemplo, bem actual, de sustentabilidade urbana e residencial, em seguida comenta-se a intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade e, finalmente, aponta-se Alvalade como suporte de experiências residenciais e urbanas e conclui-se com alguns comentários sobre a utilidade social deste “novo” bairro de Lisboa.


(Fig.01) Uma rua residencial com edifícios das HE-FCP.

Apresentação e enquadramento do Bairro de Alvalade


A II Grande Guerra tinha acabado e a inovação que chegava ao País, bem como as críticas necessidades habitacionais, levaram à criação, em 1946, de um novo organismo, as “Habitações Económicas”, ligado à Federação das Caixas de Previdência (HE-FCP), tecnicamente equipado, e orientado para uma promoção habitacional mais urbana. Este organismo irá actuar ao longo de cerca de 25 anos, até 1972, altura em que as suas atribuições passaram para o recém-criado Fundo de Fomento da Habitação (Teotónio Pereira, “As casas económicas 1947 – 1969”, Jornal Arquitectos n. 16, 17 e 18, Março/Abril de 1983, p. 11).


Nas Habitações Económicas da Federação de Caixas de Previdência - (HE-FCP), destaca-se ainda o muito meritório, extenso e aprofundado trabalho do Serviço de Estudos e Projectos, que, entre outras actividades, publicou (embora com a designação de “circulação restrita”) um significativo e extremamente útil conjunto de cadernos técnicos e de estudo e investigação sobre a problemática habitacional, que abarcaram desde aspectos de pormenorização construtiva a estudos normativos.


(Fig. 02) Exemplo dos estudos habitacionais desenvolvidos para Alvalade na Federação de Caixas de Previdência - Habitações Económicas, e apresentados pelo Arq. Miguel Jacobetty no 1.º Congresso Nacional de Arquitectura, em Maio/Junho de 1948

Considerando a excelente obra deixada pelas Habitações Económicas (HE-FCP) é interessante salientar que elas continuam a ser, ainda hoje, o organismo português ligado à habitação de interesse social que mais tempo esteve em actividade, merecendo, naturalmente, uma adequada divulgação da sua actividade, que foi longa, completa e produtiva.

A criação das HE-FCP, em meados dos anos 40, conjugou-se com a programação, pela Câmara Municipal de Lisboa, do bairro de Alvalade.

O ainda hoje inovador grande bairro de Alvalade – 45.000 habitantes em 230 ha –, foi realizado para 31.000 habitantes em fogos de renda económica mais 2.000 em moradias também de renda económica, sendo os restantes fogos marcados também por modalidades intermédias de promoção habitacional, como é o caso da renda condicionada.

Este novo bairro caracterizou-se por ser um conjunto integrado de habitação para vários grupos sociais e de equipamentos colectivos e serviços dos mais diversos tipos, conjunto este que foi sendo concluído em prazos bem definidos e razoavelmente cumpridos.


(Fig. 03) Alvalade, Planta de apresentação, 1945, Arquivo Municipal de Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa.

O “mistério” de Alvalade: o fazer cidade viva com habitação

Mais do que um bairro fez-se cidade viva, e “os mistérios” (da qualidade urbana e residencial) de Alvalade, desenhado por Faria da Costa, levar-nos-iam longe, mais longe do que é possível ir neste capítulo.

A referência ao “mistério” de Alvalade tem origem num texto de Cardoso Pires, integrado no livro “A Cavalo no Diabo”, em que o escritor diz sobre Alvalade (onde viveu muitos anos): ” Não tem história, só comércio, vá lá, bombeiros e escolas para lhe dar alegria. Os jornais dizem que é uma das zonas de mais assaltos em Lisboa, mas não se vê nem sombra de polícia ... E no entanto, à primeira vista tudo é ordem e paz – o mistério de Alvalade está aí.”

Regista-se que, já em 1999, no âmbito de um trabalho de cooperação entre o LNEC e o Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB), o mistério de Alvalade voltou a destacar-se, quando elementos desse organismo de investigação parisiense, após terem visitado Alvalade, salientaram ser este um dos melhores conjuntos urbanos residenciais que visitaram na Europa.


(Fig. 04) A caracterização envolvente e chã das “células sociais” de Alvalade

E, bem a propósito, junta-se um texto do CSTB:

“C’est un urbanisme qui réussit à articuler et à hierarchiser, sur une grande échelle urbaine, les différents espaces – des avenues aux impasses, et des espaces les plus publics aix espaces les plus privés. Il est surprenant que cet exemple ne soit pas valorisé davantage, dans la littérature professionelle internationale; il représente en effet une forme idéal typique de la ville urbaine moderne, comparable à celle élaborée par Haussman à Paris ou par Cerda à Barcelone.

A propos de l’Alvalade il faut d’abord parler du plaisir de la déambulation au hasard des avenues et des rues, jusqu’au coeur des îlots. Nous avons retrouvé ce plaisir typiquement urbain du promeneur qui flâne, erre, découvre un lieu inconnu, se laisse surprendre au milieu d’une placette aux allures villageoises, par la diversité des porches, par les mille détails de modénature, par l’échappée visuelle sur un clocher, par l’ambiance champêtre d’un jardin, puis par l’animation d’une grande avenue et qui se prend à rêver qu’il pourrait lui aussi vivre dans cet appartement dont la fenêtre est ouverte et dont s’échappe une odeur de cuisine qui lui évoque des souvenirs... Peut-être est-ce là un indice subjectif, mais néanmoins bien réel, da la qualité d’un quartier: la capacité du promeneur à s’imaginer habitant le lieu et à l’investir?”

O estudo referido, do qual se fez esta longa citação (da sua página 10), foi elaborado por Brigitte Guigou, Jean Didier Laforgue, Patrice Séchet, e designa-se “Qualité architecturale et urbaine et satisfaction résidentielle” – Projet nº 233 H3, Rapport de mission”, Programme de Coopération Scientifique et Technique Luso-Française – Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB) – Laboratoire National d’Ingénierie Civile (LNEC), Laboratoire de Sociologie Urbaine Générative, CSTB, Paris, Setembro.


(Fig. 05) Em Alvalade o peão ainda é “rei”

Alvalade: um exemplo de sustentabilidade urbana e residencial

Alvalade foi, nos anos 40, o primeiro exemplo da hoje tão referida durabilidade e vitalidade urbana e residencial e está aí, claramente, para “lavar e durar”, quem sabe e desejavelmente no âmbito de uma possível e bem oportuna acção de melhoria e requalificação, ligada a uma sua classificação como zona de interesse urbano, residencial e social/convivial especial.

No grande Alvalade e nas suas “células sociais” fez-se arquitectura urbana de pormenor, integrando-se pequenos edifícios multifamiliares com uma ainda forte ligação e utilização do espaço exterior privado, numa directa adequação a modos de vida provavelmente pouco citadinos. Enquanto, logo ali ao lado, nas avenidas, se fazia, ao mesmo tempo, habitação para famílias provavelmente mais citadinas, que podiam pagar mais pela habitação e, assim, ajudar a pagar a outra habitação mais “económica”.


(Fig. 06) Um dos segredos de Alvalade é o suscitar natural do convívio e do flanar

É possível dizer, citando em parte Cardoso Pires, que Alvalade tem mistérios, mistérios de bem-fazer cidade habitada e habitação na cidade. Alguns desses mistérios vão sendo descobertos, outros, dando razão à designação, ainda não. Mas podem e devem ser aqui referidos certos desses “mistérios”, muito ligados à matéria da desejável aliança entre qualidade de desenho, residencialização e satisfação de necessidades e mesmo dos sonhos humanos:

- A benignidade integradora de várias arquitecturas, sem dominâncias cansativas ou pouco cuidadas.

- A neutralidade, a dignidade e a escala humana de um desenho de arquitectura que é global, “rodeando” todo o edifício e integrando atraentemente edifícios e vizinhanças de proximidade (“impasses” e pracetas residenciais).

- A naturalidade da relação entre vários tipos de edifícios destinados a vários grupos sociais, apostando-se numa eficaz disseminação dos potencialmente diferentes grupos socioculturais.

- A “fácil” integração e concentração dos grandes e pequenos equipamentos ao longo das ruas, praticamente sem se provocarem quebras na crucial continuidade urbana.

- A marcação dos percursos e a capacidade de orientação, também proporcionada pela humana e comunitária repartição em grandes grupos de vizinhança, polarizados por equipamentos de proximidade e, depois, em pequenos agrupamentos de vizinhança de proximidade (pracetas e “impasses rodoviários”).

Seria possível continuar a identificar outros atributos específicos. Atributos estes que resultam de novas conjugações entre os primeiros atributos, que geram novas potencialidades. É assim que é a cidade, sempre em parte inexplicável, quando rica. E cá está a “explicação” dos mistérios. Mas à frente a eles voltaremos, felizmente, também noutros conjuntos urbanos.

(Fig. 07) A intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade

A intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade

Alvalade possui uma positiva qualidade urbanística ligada ao conhecimento sobre como fazer conjuntos dominantemente habitacionais, por um lado caracterizadamente residenciais porque suavizados, envolventes e fortemente marcados pela natureza e pela escala e usos humanos (ex. quintais) e, por outro lado, caracterizadamente urbanos, porque bem estruturados no interior (hierarquicamente) e no exterior da malha (na continuidade da cidade existente e entre vias urbanas importantes), marcados pela continuidade urbana, onde também participam os próprios equipamentos colectivos, pela existência de zonas com actividade concentrada, elas próprias criando vários tipos de sequências, pela aliança entre tráfegos de peões e veículos e por uma integração social realizada de forma que parece natural.

E se estamos hoje em altura de grande atenção aos aspectos de durabilidade, integração e eficácia urbana, que dizer do privilegiar da circulação pedonal, em largos passeios e veredas, dos muito reduzidos cuidados com o verde público, que em boa parte é cumprido pelas jardinetas e pelos quintais privados – eles próprios potencialmente utilizáveis para uma significativa actividade agrícola –, e da sábia integração da pequena indústria não poluente, criando-se uma completa actividade citadina. E é bem interessante salientar que o jovem Ribeiro Telles já participou no projecto paisagista de Alvalade.


(Fig. 08) Em Alvalade é possível viver num ambiente humanizado e suavizado pelo verde urbano a “dois passos” de uma intensa animação urbana

Em Alvalade, e embora tenhamos hoje o problema do estacionamento automóvel – mas este é um problema relativamente novo no Bairro e que tem também contornos de verdadeira irracionalidade, tal como tem salientado Gonçalo Ribeiro Telles (Entrevista a Gonçalo Ribeiro Telles, em Documentos de Arquitectura DA03, p. 40) – , é possível viver num ambiente humanizado e suavizado pelo verde urbano a “dois passos” de uma intensa animação urbana, gozando, ainda, de diversas facilidades funcionais e da proximidade em segurança a equipamentos destinados a crianças.

De certa forma é a tal mítica “quinta com porta para o Chiado”, um conjunto de pequenos “oásis” residenciais, mas associados a eixos com intensa vida própria e bem caracterizada, e teve, ainda, a abertura funcional e a capacidade plástica para receber e valorizar excelentes intervenções residenciais modernistas, complementando-se assim, ainda um pouco mais, um bairro que é também história viva, testemunho da evolução da vida cultural portuguesa.


(Fig. 09) Alvalade acolheu a inovação residencial e arquitectónica, por exemplo, no Bairro das “Estacas” de Formozinho Sanchez e Ruy Athouguia (concluído em 1954)

Alvalade como suporte de experiências residenciais e urbanas


Alvalade teve, de facto, também, outra virtude, não repetida depois noutros bairros. Foi o suporte de experiências residenciais e urbanas modernistas, que marcaram cruzamentos, praças e avenidas, fazendo-se cidade histórica e viva, sem quebras, mas sim com surpresa e mesmo emoção, tal como é necessário.

E lá estão, entre outras meritórias intervenções de arquitectura urbana pormenorizada, e para além das grandes “células sociais” concluída cerca de 1948 (com cerca de 500 fogos cada) de Miguel Jacobetty, o conjunto da Av. Rodrigo da Cunha, de Joaquim Ferreira (1951), o Bairro das Estacas, de Formosinho Sanches e Ruy d’Athouguia (1955), e os conjuntos da Av.ª do Estados Unidos da América, de Croft de Moura, Henrique Albino e Craveiro Lopes (1958) e da Av. do Brasil, de Jorge Segurado (1960).

Prova-se, assim, que é possível e necessário harmonizar uniformidade com surpresa, regra e dignidade com inovação. O plano urbano de Alvalade é, como refere Francisco Barata, “um exemplo de como um tecido urbano legível e identificável pode suportar a variação tipológica dos modelos de habitação, sem perder urbanidade” (Francisco Barata Fernandes – As formas da casa na forma da cidade. Palestra proferida nos Encontros da Associação dos Arquitectos Portugueses – Habitação, Construir Cidade com Habitação, AAP, 1998, p. 9).

Outro aspecto a salientar é que a experiência de Alvalade foi, positivamente, apresentada e discutida, entre arquitectos, no I Congresso de Arquitectura, em 1948, onde se divulgaram as células sociais de Alvalade e se “reivindicou a construção de habitações populares em altura, como condição necessária para a solução das graves carências de que sofriam as classes trabalhadoras nos meios urbanos” (Teotónio Pereira (83), ob. cit., p. 11).


(Fig. 10) Em Alvalade desenvolveu-se uma verdadeira integração social

Sobre a utilidade social de Alvalade: alguns comentários


Afinal, tal como sublinha Nuno Teotónio Pereira, Alvalade “serviu de rampa de lançamento da Federação (Habitações Económicas – Federação das Caixas de Previdência, HE-FCP)), forneceu os projectos de unidades – lote de 4 pisos – para utilização na construção de pequenos núcleos de casas de renda Económica em capitais de distrito e noutras localidades” (Teotónio Pereira (83), ob. cit., p. 11), os pequenos “alvalades” (de pequenos edifícios multifamiliares) que iriam acompanhar os pequenos “restelos” das casas económicas (de edifícios unifamiliares), também utilizando uma óptima imagem desenvolvida pelo Arq. Teotónio Pereira.

De certa forma e como também aponta o Arq. Teotónio Pereira, no artigo citado, pretendeu-se, com esta “faixa” de promoção mais urbana e “com um regime de locação menos exigente”, alargar a habitação de interesse social às classes médias, que se considerava terem, também, críticas carência habitacionais e “de cujo apoio o regime precisava.”

É interessante ir confirmando esta referência cíclica à classe média “remediada” que parece que vive bem, mas que, na prática, tem muitas carências habitacionais. Hoje em dia tal sucede novamente, ou será que nunca deixou de suceder?
E, de facto, cerca de 1948 havia essa percepção na sociedade portuguesa, tal como se demonstra pelas palavras do Eng. António Faria na apresentação do seu livro “O problema das casas económicas” (p. 10), quando diz: “este trabalho não se dedica, como vereis, a indicar apenas uma solução para a habitação dos chamados pobres, mas, também, para a da chamada classe média, que, sendo aquela que neste momento mais sofre (na luta pelas aparências), parece, também, ser aquela para a qual menos se tem olhado, embora esteja em grande maioria ...”.

Notas finais

Este artigo foi retirado, quase integralmente, de um capítulo do livro que realizei para o Instituto Nacional de Habitação (INH) e que foi lançado há cerca de um ano, marcando-se os vinte anos de actividade do INH – “INH, 1984-2004 20 Anos a Promover a Construção de Habitação Social”.
Com este artigo pretende-se incrementar a atenção que Alvalade bem merece nos mais variados aspectos urbanos, habitacionais e sociais, bem numa linha que tanta falta faz em Portugal e que corresponde a uma sistemática divulgação técnica das melhores práticas; e desde já se aponta que Alvalade voltará a ser, proximamente, revisitada aqui no Infohabitar através de uma análise arquitectónica residencial sistemática bastante dirigida para as suas “células sociais”.