sexta-feira, março 30, 2007

Sobre o Bairro de Alvalade de Faria da Costa: um exemplo bem actual de sustentabilidade urbana e residencial – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 132

 - Infohabitar 132

Sobre o Bairro de Alvalade de Faria da Costa: um exemplo bem actual de sustentabilidade urbana e residencial 


Neste artigo, depois da apresentação e do enquadramento do Bairro de Alvalade, projectado pelo arquitecto e urbanista Faria da Costa, em Lisboa, fala-se do que se designa pelo “mistério” de Alvalade, nem mais nem menos do que o fazer cidade viva com habitação, depois aborda-se este bairro como exemplo, bem actual, de sustentabilidade urbana e residencial, em seguida comenta-se a intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade e, finalmente, aponta-se Alvalade como suporte de experiências residenciais e urbanas e conclui-se com alguns comentários sobre a utilidade social deste “novo” bairro de Lisboa.


(Fig.01) Uma rua residencial com edifícios das HE-FCP.

Apresentação e enquadramento do Bairro de Alvalade


A II Grande Guerra tinha acabado e a inovação que chegava ao País, bem como as críticas necessidades habitacionais, levaram à criação, em 1946, de um novo organismo, as “Habitações Económicas”, ligado à Federação das Caixas de Previdência (HE-FCP), tecnicamente equipado, e orientado para uma promoção habitacional mais urbana. Este organismo irá actuar ao longo de cerca de 25 anos, até 1972, altura em que as suas atribuições passaram para o recém-criado Fundo de Fomento da Habitação (Teotónio Pereira, “As casas económicas 1947 – 1969”, Jornal Arquitectos n. 16, 17 e 18, Março/Abril de 1983, p. 11).


Nas Habitações Económicas da Federação de Caixas de Previdência - (HE-FCP), destaca-se ainda o muito meritório, extenso e aprofundado trabalho do Serviço de Estudos e Projectos, que, entre outras actividades, publicou (embora com a designação de “circulação restrita”) um significativo e extremamente útil conjunto de cadernos técnicos e de estudo e investigação sobre a problemática habitacional, que abarcaram desde aspectos de pormenorização construtiva a estudos normativos.


(Fig. 02) Exemplo dos estudos habitacionais desenvolvidos para Alvalade na Federação de Caixas de Previdência - Habitações Económicas, e apresentados pelo Arq. Miguel Jacobetty no 1.º Congresso Nacional de Arquitectura, em Maio/Junho de 1948

Considerando a excelente obra deixada pelas Habitações Económicas (HE-FCP) é interessante salientar que elas continuam a ser, ainda hoje, o organismo português ligado à habitação de interesse social que mais tempo esteve em actividade, merecendo, naturalmente, uma adequada divulgação da sua actividade, que foi longa, completa e produtiva.

A criação das HE-FCP, em meados dos anos 40, conjugou-se com a programação, pela Câmara Municipal de Lisboa, do bairro de Alvalade.

O ainda hoje inovador grande bairro de Alvalade – 45.000 habitantes em 230 ha –, foi realizado para 31.000 habitantes em fogos de renda económica mais 2.000 em moradias também de renda económica, sendo os restantes fogos marcados também por modalidades intermédias de promoção habitacional, como é o caso da renda condicionada.

Este novo bairro caracterizou-se por ser um conjunto integrado de habitação para vários grupos sociais e de equipamentos colectivos e serviços dos mais diversos tipos, conjunto este que foi sendo concluído em prazos bem definidos e razoavelmente cumpridos.


(Fig. 03) Alvalade, Planta de apresentação, 1945, Arquivo Municipal de Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa.

O “mistério” de Alvalade: o fazer cidade viva com habitação

Mais do que um bairro fez-se cidade viva, e “os mistérios” (da qualidade urbana e residencial) de Alvalade, desenhado por Faria da Costa, levar-nos-iam longe, mais longe do que é possível ir neste capítulo.

A referência ao “mistério” de Alvalade tem origem num texto de Cardoso Pires, integrado no livro “A Cavalo no Diabo”, em que o escritor diz sobre Alvalade (onde viveu muitos anos): ” Não tem história, só comércio, vá lá, bombeiros e escolas para lhe dar alegria. Os jornais dizem que é uma das zonas de mais assaltos em Lisboa, mas não se vê nem sombra de polícia ... E no entanto, à primeira vista tudo é ordem e paz – o mistério de Alvalade está aí.”

Regista-se que, já em 1999, no âmbito de um trabalho de cooperação entre o LNEC e o Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB), o mistério de Alvalade voltou a destacar-se, quando elementos desse organismo de investigação parisiense, após terem visitado Alvalade, salientaram ser este um dos melhores conjuntos urbanos residenciais que visitaram na Europa.


(Fig. 04) A caracterização envolvente e chã das “células sociais” de Alvalade

E, bem a propósito, junta-se um texto do CSTB:

“C’est un urbanisme qui réussit à articuler et à hierarchiser, sur une grande échelle urbaine, les différents espaces – des avenues aux impasses, et des espaces les plus publics aix espaces les plus privés. Il est surprenant que cet exemple ne soit pas valorisé davantage, dans la littérature professionelle internationale; il représente en effet une forme idéal typique de la ville urbaine moderne, comparable à celle élaborée par Haussman à Paris ou par Cerda à Barcelone.

A propos de l’Alvalade il faut d’abord parler du plaisir de la déambulation au hasard des avenues et des rues, jusqu’au coeur des îlots. Nous avons retrouvé ce plaisir typiquement urbain du promeneur qui flâne, erre, découvre un lieu inconnu, se laisse surprendre au milieu d’une placette aux allures villageoises, par la diversité des porches, par les mille détails de modénature, par l’échappée visuelle sur un clocher, par l’ambiance champêtre d’un jardin, puis par l’animation d’une grande avenue et qui se prend à rêver qu’il pourrait lui aussi vivre dans cet appartement dont la fenêtre est ouverte et dont s’échappe une odeur de cuisine qui lui évoque des souvenirs... Peut-être est-ce là un indice subjectif, mais néanmoins bien réel, da la qualité d’un quartier: la capacité du promeneur à s’imaginer habitant le lieu et à l’investir?”

O estudo referido, do qual se fez esta longa citação (da sua página 10), foi elaborado por Brigitte Guigou, Jean Didier Laforgue, Patrice Séchet, e designa-se “Qualité architecturale et urbaine et satisfaction résidentielle” – Projet nº 233 H3, Rapport de mission”, Programme de Coopération Scientifique et Technique Luso-Française – Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB) – Laboratoire National d’Ingénierie Civile (LNEC), Laboratoire de Sociologie Urbaine Générative, CSTB, Paris, Setembro.


(Fig. 05) Em Alvalade o peão ainda é “rei”

Alvalade: um exemplo de sustentabilidade urbana e residencial

Alvalade foi, nos anos 40, o primeiro exemplo da hoje tão referida durabilidade e vitalidade urbana e residencial e está aí, claramente, para “lavar e durar”, quem sabe e desejavelmente no âmbito de uma possível e bem oportuna acção de melhoria e requalificação, ligada a uma sua classificação como zona de interesse urbano, residencial e social/convivial especial.

No grande Alvalade e nas suas “células sociais” fez-se arquitectura urbana de pormenor, integrando-se pequenos edifícios multifamiliares com uma ainda forte ligação e utilização do espaço exterior privado, numa directa adequação a modos de vida provavelmente pouco citadinos. Enquanto, logo ali ao lado, nas avenidas, se fazia, ao mesmo tempo, habitação para famílias provavelmente mais citadinas, que podiam pagar mais pela habitação e, assim, ajudar a pagar a outra habitação mais “económica”.


(Fig. 06) Um dos segredos de Alvalade é o suscitar natural do convívio e do flanar

É possível dizer, citando em parte Cardoso Pires, que Alvalade tem mistérios, mistérios de bem-fazer cidade habitada e habitação na cidade. Alguns desses mistérios vão sendo descobertos, outros, dando razão à designação, ainda não. Mas podem e devem ser aqui referidos certos desses “mistérios”, muito ligados à matéria da desejável aliança entre qualidade de desenho, residencialização e satisfação de necessidades e mesmo dos sonhos humanos:

- A benignidade integradora de várias arquitecturas, sem dominâncias cansativas ou pouco cuidadas.

- A neutralidade, a dignidade e a escala humana de um desenho de arquitectura que é global, “rodeando” todo o edifício e integrando atraentemente edifícios e vizinhanças de proximidade (“impasses” e pracetas residenciais).

- A naturalidade da relação entre vários tipos de edifícios destinados a vários grupos sociais, apostando-se numa eficaz disseminação dos potencialmente diferentes grupos socioculturais.

- A “fácil” integração e concentração dos grandes e pequenos equipamentos ao longo das ruas, praticamente sem se provocarem quebras na crucial continuidade urbana.

- A marcação dos percursos e a capacidade de orientação, também proporcionada pela humana e comunitária repartição em grandes grupos de vizinhança, polarizados por equipamentos de proximidade e, depois, em pequenos agrupamentos de vizinhança de proximidade (pracetas e “impasses rodoviários”).

Seria possível continuar a identificar outros atributos específicos. Atributos estes que resultam de novas conjugações entre os primeiros atributos, que geram novas potencialidades. É assim que é a cidade, sempre em parte inexplicável, quando rica. E cá está a “explicação” dos mistérios. Mas à frente a eles voltaremos, felizmente, também noutros conjuntos urbanos.

(Fig. 07) A intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade

A intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade

Alvalade possui uma positiva qualidade urbanística ligada ao conhecimento sobre como fazer conjuntos dominantemente habitacionais, por um lado caracterizadamente residenciais porque suavizados, envolventes e fortemente marcados pela natureza e pela escala e usos humanos (ex. quintais) e, por outro lado, caracterizadamente urbanos, porque bem estruturados no interior (hierarquicamente) e no exterior da malha (na continuidade da cidade existente e entre vias urbanas importantes), marcados pela continuidade urbana, onde também participam os próprios equipamentos colectivos, pela existência de zonas com actividade concentrada, elas próprias criando vários tipos de sequências, pela aliança entre tráfegos de peões e veículos e por uma integração social realizada de forma que parece natural.

E se estamos hoje em altura de grande atenção aos aspectos de durabilidade, integração e eficácia urbana, que dizer do privilegiar da circulação pedonal, em largos passeios e veredas, dos muito reduzidos cuidados com o verde público, que em boa parte é cumprido pelas jardinetas e pelos quintais privados – eles próprios potencialmente utilizáveis para uma significativa actividade agrícola –, e da sábia integração da pequena indústria não poluente, criando-se uma completa actividade citadina. E é bem interessante salientar que o jovem Ribeiro Telles já participou no projecto paisagista de Alvalade.


(Fig. 08) Em Alvalade é possível viver num ambiente humanizado e suavizado pelo verde urbano a “dois passos” de uma intensa animação urbana

Em Alvalade, e embora tenhamos hoje o problema do estacionamento automóvel – mas este é um problema relativamente novo no Bairro e que tem também contornos de verdadeira irracionalidade, tal como tem salientado Gonçalo Ribeiro Telles (Entrevista a Gonçalo Ribeiro Telles, em Documentos de Arquitectura DA03, p. 40) – , é possível viver num ambiente humanizado e suavizado pelo verde urbano a “dois passos” de uma intensa animação urbana, gozando, ainda, de diversas facilidades funcionais e da proximidade em segurança a equipamentos destinados a crianças.

De certa forma é a tal mítica “quinta com porta para o Chiado”, um conjunto de pequenos “oásis” residenciais, mas associados a eixos com intensa vida própria e bem caracterizada, e teve, ainda, a abertura funcional e a capacidade plástica para receber e valorizar excelentes intervenções residenciais modernistas, complementando-se assim, ainda um pouco mais, um bairro que é também história viva, testemunho da evolução da vida cultural portuguesa.


(Fig. 09) Alvalade acolheu a inovação residencial e arquitectónica, por exemplo, no Bairro das “Estacas” de Formozinho Sanchez e Ruy Athouguia (concluído em 1954)

Alvalade como suporte de experiências residenciais e urbanas


Alvalade teve, de facto, também, outra virtude, não repetida depois noutros bairros. Foi o suporte de experiências residenciais e urbanas modernistas, que marcaram cruzamentos, praças e avenidas, fazendo-se cidade histórica e viva, sem quebras, mas sim com surpresa e mesmo emoção, tal como é necessário.

E lá estão, entre outras meritórias intervenções de arquitectura urbana pormenorizada, e para além das grandes “células sociais” concluída cerca de 1948 (com cerca de 500 fogos cada) de Miguel Jacobetty, o conjunto da Av. Rodrigo da Cunha, de Joaquim Ferreira (1951), o Bairro das Estacas, de Formosinho Sanches e Ruy d’Athouguia (1955), e os conjuntos da Av.ª do Estados Unidos da América, de Croft de Moura, Henrique Albino e Craveiro Lopes (1958) e da Av. do Brasil, de Jorge Segurado (1960).

Prova-se, assim, que é possível e necessário harmonizar uniformidade com surpresa, regra e dignidade com inovação. O plano urbano de Alvalade é, como refere Francisco Barata, “um exemplo de como um tecido urbano legível e identificável pode suportar a variação tipológica dos modelos de habitação, sem perder urbanidade” (Francisco Barata Fernandes – As formas da casa na forma da cidade. Palestra proferida nos Encontros da Associação dos Arquitectos Portugueses – Habitação, Construir Cidade com Habitação, AAP, 1998, p. 9).

Outro aspecto a salientar é que a experiência de Alvalade foi, positivamente, apresentada e discutida, entre arquitectos, no I Congresso de Arquitectura, em 1948, onde se divulgaram as células sociais de Alvalade e se “reivindicou a construção de habitações populares em altura, como condição necessária para a solução das graves carências de que sofriam as classes trabalhadoras nos meios urbanos” (Teotónio Pereira (83), ob. cit., p. 11).


(Fig. 10) Em Alvalade desenvolveu-se uma verdadeira integração social

Sobre a utilidade social de Alvalade: alguns comentários


Afinal, tal como sublinha Nuno Teotónio Pereira, Alvalade “serviu de rampa de lançamento da Federação (Habitações Económicas – Federação das Caixas de Previdência, HE-FCP)), forneceu os projectos de unidades – lote de 4 pisos – para utilização na construção de pequenos núcleos de casas de renda Económica em capitais de distrito e noutras localidades” (Teotónio Pereira (83), ob. cit., p. 11), os pequenos “alvalades” (de pequenos edifícios multifamiliares) que iriam acompanhar os pequenos “restelos” das casas económicas (de edifícios unifamiliares), também utilizando uma óptima imagem desenvolvida pelo Arq. Teotónio Pereira.

De certa forma e como também aponta o Arq. Teotónio Pereira, no artigo citado, pretendeu-se, com esta “faixa” de promoção mais urbana e “com um regime de locação menos exigente”, alargar a habitação de interesse social às classes médias, que se considerava terem, também, críticas carência habitacionais e “de cujo apoio o regime precisava.”

É interessante ir confirmando esta referência cíclica à classe média “remediada” que parece que vive bem, mas que, na prática, tem muitas carências habitacionais. Hoje em dia tal sucede novamente, ou será que nunca deixou de suceder?
E, de facto, cerca de 1948 havia essa percepção na sociedade portuguesa, tal como se demonstra pelas palavras do Eng. António Faria na apresentação do seu livro “O problema das casas económicas” (p. 10), quando diz: “este trabalho não se dedica, como vereis, a indicar apenas uma solução para a habitação dos chamados pobres, mas, também, para a da chamada classe média, que, sendo aquela que neste momento mais sofre (na luta pelas aparências), parece, também, ser aquela para a qual menos se tem olhado, embora esteja em grande maioria ...”.

Notas finais

Este artigo foi retirado, quase integralmente, de um capítulo do livro que realizei para o Instituto Nacional de Habitação (INH) e que foi lançado há cerca de um ano, marcando-se os vinte anos de actividade do INH – “INH, 1984-2004 20 Anos a Promover a Construção de Habitação Social”.
Com este artigo pretende-se incrementar a atenção que Alvalade bem merece nos mais variados aspectos urbanos, habitacionais e sociais, bem numa linha que tanta falta faz em Portugal e que corresponde a uma sistemática divulgação técnica das melhores práticas; e desde já se aponta que Alvalade voltará a ser, proximamente, revisitada aqui no Infohabitar através de uma análise arquitectónica residencial sistemática bastante dirigida para as suas “células sociais”.

quinta-feira, março 22, 2007

Sobre o Grupo Habitar, um pouco de passado e de futuro – António Baptista Coelho - Infohabitar 131

 - Infohabitar 131

Passados quase seis anos após a primeira reunião do Grupo Habitar (GH), a 28 de Junho de 2001 em Santo Tirso, e pouco mais de quatro anos após a sua fundação, o Grupo Habitar (GH) assegurou 17 sessões de apresentação e debate (entre cerca de 30 a 150 participantes) e 10 visitas técnicas, em parcerias com diversas instituições, parcerias estas que, por sua vez, geraram e apoiaram diversificadas actividades de discussão e disseminação técnica, desenvolvidas, seja pelo GH, seja por outras entidades.

Neste seu período inicial o Grupo Habitar (GH) montou um site, que está alojado no site do LNEC, e assegura, desde há dois anos, a edição de uma revista na Internet, o Infohabitar, que semanalmente disponibiliza um novo artigo técnico sobre matérias que mantêm a actualidade, o que proporciona, hoje em dia, um património editorial que ultrapassa já os 130 artigos e as 600 páginas de textos ilustrados, que, naturalmente, tem gerado “picos” de leitura que, várias vezes, ultrapassaram as 450 leituras diárias de artigos.
Terminada, assim, a fase de consolidação do GH, constatando-se a nossa vitalidade e utilidade e na oportunidade de se aproximarem as segundas eleições do GH, há que privilegiar uma nova fase de crescimento, o mais possível sustentado, pois só assim será possível aproximarmo-nos do cumprimento dos objectivos que nos propusemos. Neste sentido inicia-se aqui uma reflexão, seja sobre a natureza básica do GH, seja sobre o que o GH fez e pode/quer fazer a curto e médio prazos, seja sobre como passar, eficaz e rapidamente, para um nível um pouco mais dinamizado de actividade, baseado no aprofundamento das boas práticas havidas, mas procurando, basicamente, diversificar os tipos de actividades desenvolvidas e aumentar a sua frequência.

É uma tal reflexão que se inicia neste artigo, e sublinha-se querer ser este texto apenas uma abertura dessa reflexão, pois é fundamental que ela seja retomada e desenvolvida por outros colegas, designadamente, aqui nas páginas do Infohabitar, e, salienta-se, sempre feita no cumprimento de uma abordagem das temáticas habitacionais e dos modos de as aprofundar e melhor conhecer, que tenha também utilidade para todo o nosso universo de leitores. É assim que se coloca este texto, que é ilustrado, informalmente, por uma sequência de imagens das acções do Grupo Habitar.

Sobre a natureza do Grupo Habitar


O Grupo Habitar – Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional é uma associação de natureza técnica e científica, de direito privado e sem fins lucrativos, com natureza basicamente multidisciplinar, que nasceu do interesse de pessoas com diversas formações e práticas profissionais, ligadas às temáticas da habitação, do urbanismo e da qualidade de vida, um interesse direccionado seja para um estudo teórico e prático das mais diversas matérias do habitar (da habitação à cidade e do mundo físico ao mundo social), seja para o perspectivar de um tal aprofundamento numa acção, o mais possível contínua, de ligação entre a prática e a investigação mais técnica e teórica, seja para a já referida e afirmada perspectiva multidisciplinar e multiprofissional, seja para um objectivo que sempre tenderá a tentar harmonizar e articular, positivamente, a acção técnica e a satisfação de quem habita a casa e a cidade.

E por isso o GH visa a melhoria da qualidade da habitação e do espaço urbano que todos habitamos, através de variadas actividades, entre as quais a visita e a análise de conjuntos habitacionais e o estudo, a discussão e a divulgação dos principais problemas e dos aspectos qualitativos que caracterizam as nossas habitações, os nossos bairros e as nossas cidades.
Picos de leitura do infohabitar durante Março de 2007

E é assim que o GH quer actuar em duas frentes de acção, distintas, mas potencialmente boas aliadas: (i) visar uma estimulante e fundamental variedade de aspectos da qualidade de vida, desde a integração paisagística e ambiental, à qualidade de desenho de arquitectura, desde a qualidade construtiva, a durabilidade e o equilíbrio de custos, à satisfação dos moradores e à preparação dos aspectos de gestão; (ii) e privilegiar, cada vez mais, acções disciplinares conjuntas e disciplinarmente abertas e interactuantes, seja entre as diversas disciplinas e especialidades associadas, seja relativamente aos habitantes e à sua fundamental satisfação, considerando aqui, entre outros aspectos, as actuais tendências de mutação nos modos de vida e de uso das casas, dos conjuntos residenciais e da cidade.

São os seguintes os grandes temas disciplinares do GH:
  • Estudar e discutir o habitar numa forma ampla, multidisciplinar e integrada, numa perspectiva teórico-prática que considere uma visão prospectiva fundamentada sobre o que deverá ser o espaço habitacional, em Portugal, neste novo século, assegurando-se a análise consistente do que já foi estudado e realizado, numa perspectiva que privilegie os casos português, europeu e da CPLP.
  • Considerar o habitar nos seus diversos níveis físicos, do fogo ao conjunto habitacional, e nas suas grandes problemáticas: da constituição de continuidades urbanas vitalizadas à integração paisagística e ambiental, da qualidade de desenho de arquitectura à qualidade construtiva, da satisfação dos moradores à preparação dos aspectos de gestão e as especificidades da habitação apoiada e a custos controlados.
  • Apoiar o desenvolvimento de um habitar condigno e de qualidade e promover, a nível nacional, o progresso e a difusão dos conhecimentos teórico-práticos sobre o habitar, designadamente, através da observação, do estudo e da discussão das realidades e da problemática habitacional.

Dinamização e desenvolvimento do Infohabitar

O que se pretende para o Infohabitar é que editorialmente ele se continue a articular com as actividades de discussão e informação do Grupo Habitar, seja publicitando estas actividades, seja constituindo um repositório vivo dos temas e percursos desenvolvidos.

Em termos de impacto pretende-se realizar a curto prazo um redesenho do próprio Infohabitar, dotando-o com uma imagem que se deseja mais coerente com o seu perfil de revista interactiva sobre as temáticas abordadas, de modo a que o leitor possa encontrar um cenário editorial e uma página ainda mais amigável e estimulante.

Iniciou-se já a edição no Infohabitar da análise e divulgação de boas práticas habitacionais e urbanas, e considera-se que esta actividade poderá vir a ser dinamizada, designadamente, através de múltiplas contribuições desenvolvidas por um amplo leque de colaboradores, que poderão desenvolver as suas análises sob diversas perspectivas; condição esta que, desde que clarificada, se considera muito rica.
E apontam-se, em seguida, os temas do Infohabitar:
  • Memória
  • Análise de casos habitacionais e urbanos de referência (novo)
  • Investigação habitacional e urbana
  • Grupo Habitar e Infohabitar
  • Sustentabilidade no habitar
  • Habitar de interesse social e habitar cooperativo
  • Intervir e construir no construído
  • Gestão da cidade habitada
  • Escalas e tempos do habitar
  • Humanidades e habitar
  • Cidades amigas – conviviais, acessíveis, para todos, e seguras
  • História(s) e tipologias do habitar
  • Desenho e a humanização do habitar
  • Integrar o habitar
  • Natureza, tempo, cidade e lugar
  • Actualidades, comentários, notícias, informações

Dinamização das Visitas Técnicas do GH


As visitas técnicas já realizadas pelo GH abordaram os seguintes temas específicos, numa ordem cronológica aproximada:
  • Bairros citadinos integrados – o bairro de Telheiras em Lisboa e as intervenções coordenadas pelo Arq. Duarte Nuno Simões
  • Requalificação e regeneração de conjuntos de habitação apoiada em Lisboa e Vila Nova de Gaia.
  • Boas práticas recentes do realojamento promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, finais dos anos noventa e início do século XXI.
  • História dos primeiros bairros sociais lisboetas no período de 1918 a cerca de 1940.
  • Regeneração urbana e habitacional de um conjunto cooperativo – a requalificação e a conclusão do conjunto da Bouça no Porto, projecto de Siza Vieira.
  • Importância do verde urbano, a história de um jardim exemplar – o Jardim Gulbenkian.
  • Humanização dos espaços residenciais de iniciativa cooperativa, exemplos em Lisboa e Faro.
  • Reabilitação habitacional e urbana em centros históricos – o caso de Coimbra

Temas de Visitas Técnicas de curta duração


Apontam-se em seguida novos temas para visitas de curta duração do GH, considerando, especificamente, aspectos de humanização do habitar.
Cidades na cidade – os bairros da vida urbana humanizada: A cidade viva, humana e atraente tem de ser uma cidade de bairros e conjuntos urbanos vivos e caracterizados, uma cidade feita de pequenas cidades. Os bons bairros citadinos, aqueles em que gostamos/gostaríamos de viver existem realmente, mais velhos, orgânicos e populares, ou mais recentes e planeados.
Considerando-se isto pretende-se percorrer e comentar estas cidades na cidade, evidentemente, em várias visitas e desejavelmente com base em sessão/sessões de introdução geral ao tema.
Natureza e cidade: Privilegia-se, numa primeira linha, a aproximação à importância global e à actual urgência da previsão de espaços de natureza na cidade, para a suavizar e humanizar e porque o contacto com a natureza é vital . Parques, jardins e espaços urbanos ajardinados serão assim tratados, primeiro de uma forma genérica e naturalmente ligada à sua evolução histórica, deixando-se aberta uma desejável linha de visitas, reflexão e divulgação, por exemplo, de casos de referência.
Praças, pracetas e ruas citadinas, as salas e os corredores citadinos: Desejavelmente o cidadão deverá poder circular em continuidade através de um mundo urbano de surpresa, diversidade funcional adequada, humanização e atractividade. Toda esta matéria, tal como um grande edifício, tem as suas melhores fundações, no tecido urbano preexistente das praças, pracetas e ruas mais vivas e mais atraentes, associadas aos hoje vitais aspectos de convivialidade e de uso vitalizado do exterior; e sobre isto sublinha-se que há autores que se referem a estes espaços como verdadeiras salas da cidade. Simultaneamente há que intervir nas ligações mútuas entre estas parcelas de humanização e urbanidade, (re)constituindo gradualmente grandes e extremamente motivadoras sequências urbanas.
Contribuições para uma pequena história dos bairros sociais de Lisboa e do Porto – sequências de visitas: Quem conheça minimamente as respectivas soluções urbanas e habitacionais não tem dúvidas sobre o seu interesse para a reflexão teórico-prática sobre a importância e as várias facetas da humanização do habitar. Na sequência das visitas já realizadas em Lisboa até ao início da década iniciada em 1940, considera-se que as próximas visitas devem privilegiar as células sociais do Bairro de Alvalade e o Bairro de Olivais Norte/Encarnação. Será, no entanto, prioritário iniciar também as visitas aos primeiros bairros sociais no Porto e Matosinhos.
Intervenções de preenchimento urbano em Lisboa e no Porto – sequências de visitas: Uma primeira ronda de visitas e debates sobre velhas e novas soluções de integração física pormenorizada, preenchimento, densificação e enriquecimento funcional em espaços urbanos consolidados e sobre as perspectivas que daí se podem retirar, designadamente, para os objectivos de mistura social diversificada, de vitalização pontual de certas zonas da cidade e de melhoria das respectivas imagens urbanas, físicas e globais.
Cidade Nova de St. André – sessão técnica de apresentação seguida de visita: Trata-se de uma visita importante seja devido a se poder visitar uma grande intervenção urbana em que houve uma afirmada intenção de harmonização paisagística profunda e ampla, seja por se estar em presença de uma das poucas intervenções que, entre nós, se tentaram aproximar da fundação de uma nova cidade, de raiz e praticamente sem preexistências urbanas próprias. Considera-se que a associação de uma sessão técnica e de uma visita tem plena justificação sendo essencial garantir a cooperação de técnicos associados à concepção global e de pormenor desta cidade.
Prémio INH – um percurso e uma escola de boas práticas habitacionais e urbanas: Considerando a pequena história, já com mais de vinte anos, da Habitação de Custos Controlados (HCC) em Portugal, propõem-se visitas guiadas e comentadas por percursos marcados por conjuntos residenciais de HCC que se destacaram no âmbito das edições anuais dos Prémios do Instituto Nacional de Habitação (os Prémios INH), cuja história vai também já até 1989.
Exemplos de humanização e de sustentabilidade urbana no habitar cooperativo – uma sequência temporal: Propõem-se pequenas viagens por sequências de conjuntos urbanos habitacionais desenvolvidos pela promoção cooperativa e onde se visou criar um sentido funcional e ambiental de cidade completa, equilibrada e integrada, em termos paisagísticos, físicos, sociais e de equipamentos.

Lançamento de Visitas Técnicas de média duração

Pretende-se montar viagens técnicas, ligadas a matérias do habitar, com duração superior a um dia, dirigidas para um leque relativamente amplo de profissionais ligados às matérias do habitar, embora com uma tónica específica nos temas da arquitectura e do urbanismo residencial e designadamente numa perspectiva de conhecimento directo de soluções urbanas e habitacionais que aliem a qualidade do desenho com objectivos específicos de humanização e satisfação residencial. Em termos profissionais também se considera ser muito benéfica a participação multidisciplinar, pois assim se consegue uma atenção diversificada e motivadora de um interesse dinamizado seja nas visitas, seja nos encontros técnicos, seja na discussão que naturalmente caracteriza todas as actividades do GH.
De forma genérica pretende-se que cada viagem seja organizada no respeito por uma temática “central”, que será abordada numa perspectiva completa, histórica e estratégica. A temática privilegiada em cada viagem será, no entanto, acompanhada por um programa de encontros e de visitas que proporcione, complementarmente, o conhecimento e a vivência de elementos arquitectónicos, urbanos e culturais marcantes, que sejam estrategicamente acessíveis e que desejavelmente propiciem referências para a temática “central” da viagem. A organização de cada viagem irá privilegiar o contacto directo com as condições de vida correntes nas zonas visitadas, condição esta que se liga também a uma pontual imersão em cenários de habitar que marquem o dia-a-dia das respectivas populações.

Dinamização das Sessões Técnicas do GH

Relembram-se os temas já desenvolvidos em sessões técnicas e desenvolvem-se um pouco alguns temas previstos:
  • Bairros do futuro presente – o caso da BO01 uma perspectiva de síntese.
  • Programa Especial de Realojamento (PER).
  • Associação entre habitar e requalificar a cidade.
  • Facetas mais e menos objectivas da qualidade do habitar (ex., a iluminação natural).
  • Sustentabilidade habitacional e urbana.
  • Prática profissional e promoção de habitação .
  • Idosos numa cidade e sociedade envelhecidas.
  • Habitar o espaço público com sustentabilidade.
  • Sustentabilidade ambiental, arquitectura e habitação.
  • Prática profissional e promoção de habitação – Proporciona-se um tempo de reflexão sobre a prática profissional de projectistas considerados essenciais na intervenção no domínio do habitar e da construção, ao longo de um período temporal significativo. Visa-se uma reflexão fundamentada e prospectiva sobre o projecto e construção de habitação. A ideia é, assim, a propósito de exemplos meritórios de projectistas, debater aspectos e problemas que por eles sejam considerados como hoje em dia mais determinantes nos amplos domínios da arquitectura, do urbanismo habitacional e da construção, bem como as respectivas perspectivas de futuro, tudo isto com uma atenção específica à área da promoção da habitação apoiada pelo Estado.
  • As novas práticas profissionais no habitar – Pretende-se apresentar uma perspectiva de novas arquitecturas urbanas que aliem a humanização do habitar e a contribuição para a regeneração urbana local com soluções de desenho e funcionais inovadoras e bem fundamentadas nos desejos e hábitos habitacionais; pretende-se também privilegiar a apresentação das novas gerações de projectistas na área da habitação apoiada pelo Estado.
  • Natureza, cidade e ordenamento paisagístico – sessão dirigida para a importância global e urgente da previsão de espaços de natureza na cidade, para a suavizar e humanizar e porque o contacto com a natureza é vital . Parques, jardins e espaços urbanos ajardinados serão aqui tratados de uma forma genérica e numa perspectiva que privilegia a sua relação com a defesa de um fundamental ordenamento paisagístico nas nossas cidades de hoje.
  • Bairros do futuro presente – o caso da BO01 e o “Campo de Batatas” de Charles Moore em Malmö, entre outras novas soluções de vizinhança residencial, a propósito da adopção de um conjunto significativo de inovadoras tipologias residenciais, pretende-se suscitar uma tarde de discussão sobre as novas formas humanizadas de viver a casa na cidade. Pretende-se articular esta apresentação com mais uma oportunidade de discutir as novas tipologias domésticas e de edifícios de habitação, naturalmente numa perspectiva de aprofundamento de um serviço habitacional humanizado, extremamente sensível e adaptável aos desejos e hábitos habitacionais, mas claramente influenciador de um habitar que alie o serviço da pessoa ao da cidade.

Sobre as Conferências Alargadas do GH


Relembram-se os temas já tratados em conferências alargadas e aponta-se um novo tema possível:
  • Requalificar a cidade com habitação
  • O espaço público sustentável
  • As acessibilidades da cidade e do habitar: Pretende-se aprofundar as acessibilidades suaves e do desenvolvimento de uma “âncora verde” nas acessibilidades e na promoção da qualidade, da vitalidade e do fundamental encadeamento dos espaços públicos urbanos. As praças, pracetas e ruas citadinas são as salas e os corredores da cidade, locais que devem ser veículos da humanização e da segurança em meio urbano. Chega de uma cidade espartilhada e feita de parcelas autistas em que passar de uma para outra é difícil ou mesmo impossível, mas para avançar solidamente neste sentido é fundamental basearmo-nos nos principais pólos de coesão da vida urbana dos bairros e das parcelas urbanas com maior identidade e vitalidade. E para que assim aconteça é fundamental partirmos de uma acção que favoreça a sua funcionalidade e humanização, bem como o desenvolvimento das suas competências locais e do seu carácter próprio em termos dos seus usos e imagens urbanas; simultaneamente há que intervir nas ligações mútuas entre estas parcelas de humanização e urbanidade, (re)constituindo gradualmente grandes e extremamente motivadoras sequências urbanas.

Reuniões de discussão sobre temas específicos (nova iniciativa)
A ideia, ainda em desenvolvimento, é reunir, durante uma dado período de tempo, um conjunto seleccionado e limitado de técnicos e representantes de instituições com responsabilidade na promoção, no projecto e na gestão de habitação, para se discutir, em regime de imersão, um tema previamente definido com a contribuição do GH. Para motivar a discussão poderá ser previamente concretizada uma pequena apresentação e/ou realizada uma visita técnica.
Conferência Bienal Habitar
O objectivo geral é a caracterização e o debate das temáticas da qualidade de vida, da qualidade de desenho, da técnica e da durabilidade e sustentabilidade do nosso habitat residencial. Visa-se a programação da 1.ª edição de uma conferência internacional bienal, que será, sequencialmente realizada em diferentes cidades e em parceria, de primeira linha, com as respectivas autarquias. A 1.ª edição desta Conferência Internacional Bienal será o “Habitar 2007 – município “X” (a divulgar proximamente) – um habitar para os habitantes e para a cidade. Conferência internacional promovida pelo Grupo Habitar e por um dado município, contando com a colaboração e o apoio de um determinado conjunto de instituições e entidades.
Possibilidades de dinamização do Grupo Habitar – algumas notas gerais
De certa forma o “segredo” da dinamização das actividades do Grupo Habitar é fácil de descobrir, trata-se de poder vir a replicar tipos de actividades já desenvolvidas, realizando-as, segundo certas regras de boa prática, em parte já identificadas, em variados sítios do país, e segundo uma adequada distribuição temporal e territorial.
Pensa-se, por exemplo, na possibilidade de dobrar as actividades:
- replicando as acções que mais êxito tiveram, por exemplo, associando, no mesmo dia, Visitas e Sessões Técnicas, realizadas em estreita parceria com um dado município;
- passando-se, assim, de uma promoção de cerca de 3 sessões/reuniões técnicas por ano, por exemplo, para cerca de 6;
- passando-se de cerca de 3 visitas técnicas por ano, também para cerca de 6;
- provavelmente, associando-se ou alternando-se as sessões e as visitas de modo a cobrir-se o melhor possível todo o ano; e uma forma muito prática de assegurar esta actividade é distribuir responsabilidades específicas de organização dos diversos eventos, considerando-se que o seu enquadramento será assegurado pela direcção do GH e a sua divulgação feita com o apoio das nossas mailing lists e dos meios de divulgação dos parceiros com quem, em cada caso, unirmos esforços;
- e no que se refere ao Infohabitar o que mais importa é assegurar três aspectos: um deles é continuar a edição semanal; outro é diversificar o corpo redactorial (condição para a qual bastará um pequeno esforço de muitos potenciais “redactores”); e o terceiro disseminar intensamente a divulgação do Infohabitar, e este é um trabalho fácil de fazer se verdadeiramente desmultiplicado; e afinal basta manter a tendência actual de crescimento das leituras, hoje bem próximas de 40.000 acessos e de 60.000 page views .
Evolução das leituras do infohabitar ao longo dos anos de 2006/2007

Como palavras finais de um artigo que quer fazer o registo de um marco de dinamização do Grupo Habitar, nas vésperas da sua 5.ª Assembleia Geral, vale bem a pena lembrar o nosso nome, que começa pela palavra “grupo”, o que significa a nossa vontade básica de sermos uma associação activa e verdadeiramente colegial, assegurando actividades em conjunto, mas em que cada elemento do grupo traga um valor acrescido e específico a essas iniciativas, e assim aqui fica o desafio para que todos nós os que já integram o GH, sejam um pouco mais participantes, e para todos aqueles que se sintam motivado para estas actividades, connosco contactarem e poderem começar a participar com o GH nas suas actividades, que se desejam cada vez mais diversificadas, dinamizadas e estimulantes.
E termina-se, naturalmente, com o sublinhar dos apoios prestados ao GH e com as referências a quem tem ajudado nesta excelente aventura e ao seu rico leque de objectivos específicos.

Registos de referência:
  • Quem tem apoiado o Grupo Habitar
  • Corpos sociais do GH
  • Objectivos específicos do GH
  • Contactos do GH

Quem tem apoiado o Grupo Habitar
O Grupo Habitar tem a sua sede no Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa, e tem merecido fundamentais apoios periódicos, designadamente, ao nível de aspectos organizativos e de acções conjuntas, do Instituto Nacional de Habitação (INH), da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) e do próprio LNEC. Mas nesta matéria há que sublinhar que a Delegação no Porto do INH, dirigida pelo Eng. Defensor de Castro, que é Vice-presidente do GH, tem cumprido sempre um papel, informal, de sede gémea do Grupo Habitar no norte do país; foi aliás um dos objectivos fundadores do GH, que este nunca fosse um grupo ligado a uma cidade e a um círculo tendencialmente fechado, mas sim uma associação ligada, tendencialmente, a todas as cidades e sítios de Portugal e que honre um conjunto de associados cujo alargamento apenas tem e terá como motivo a valia humana e profissional e naturalmente a concordância com a natureza e a razão de ser do Grupo Habitar, acima apontadas.
E por isso se referem aqui algumas das entidades que connosco já colaboraram em diversos eventos e a quem o GH deve agradecimentos, numa ordem temporal apenas aproximada: Câmaras Municipais de Lisboa, Porto, Matosinhos, Évora, Faro, Tavira e Coimbra, Gebalis, SRU do Porto, CIN, Fundação Calouste Gulbenkian, Universidade de Évora, Grupo MCH Algarve, Universidade do Algarve, GAT de Faro, Cooperativas As Sete Bicas, Coobital e Caselcoop, Ordem dos Engenheiros – Região Centro, Gabinete para o Centro Histórico da CM de Coimbra, Inválidos do Comércio, Imperalum, e ADENE – Agência para a Energia.
E entre as muitas pessoas que connosco cooperaram há que sublinhar alguns, cujas intervenções foram fundamentais nas actividades do Grupo Habitar (igualmente, numa ordem cronológica apenas aproximada): Duarte Nuno Simões, Vasco Folha, Paulo Alzamora, Paulo Tormenta Pinto, Guilherme Vilaverde, José Teixeira Monteiro, António Madureira, José Coimbra, Luís Anglin, Carlos Coradinho, Justino de Morais, Gonçalo Ribeiro Telles, José Vasconcelos Paiva, Orlando Vargas, José Lopes da Costa, Rogério P. Inácio, José Brito, Nuno Teotónio Pereira, Alberto Soares, José Clemente Ricon, Manuel Correia Fernandes, A. Leça Coelho, António Santos, Carlos Coelho, Hermano Vicente, Paulo Machado, António Reis Cabrita, Duarte Nuno Gonçalves, Raúl Hestnes Ferreira, José Teixeira Trigo, João Soares, Fernando Pinto, Elisabete Arsénio, Luís Bramão, Amélia Santos, Manuela Rosa, Celestino Flórido Quaresma, João Bigotte de Almeida, Sidónio Simões, Leopoldo da Cunha Matos, Nuno Figueiral, António Azenha, Isabel Lucena, Maria Alexandra Nunes, Sílvia Soares, Maria João Freitas, Rui Loza, Fausto Simões, Pina dos Santos, Alexandre Fernandes e Jorge Ramos.
E naturalmente há que registar o grupo, já extenso, cujas contribuições construíram o Infohabitar (em ordem referida à ordem de edição): Duarte Nuno Simões; Celeste d'Oliveira Ramos; Marilice Costi; Sheila Walbe Ornstein; José Walter Galvão; Maria João Eloy; António Reis Cabrita; Nuno Teotónio Pereira; Sara Eloy; António Baptista Coelho; Paulo Machado; João Carvalhosa; Guilherme Vilaverde; Maria Luiza Forneck; Khaled Ghoubar; José Coimbra; Pedro Baptista Coelho; Sidónio Simões; José L. M. Dias; Manuel Tereso; António Novais; Rita Abreu; Teresa Heitor; Ana Tomé; Fausto Simões; Carlos Pina dos Santos. Mas aqui mal estaria o GH se não fizesse um agradecimento público e evidenciado à Arq.ª Paisagista Maria Celeste Ramos, cujos inúmeros e muito qualificados artigos têm contribuído fortemente para o dinamismo do nosso Infohabitar.
Corpos sociais do Grupo Habitar
Mesa da Assembleia Geral:
Presidente: Arq.º Duarte Nuno Gomes Simões
Vice-Presidente: Eng.º Hermano Vicente
Secretário: Orlando Manuel Ezequiel Vargas dos Santos
Direcção:
Presidente: Arq.º António Júlio Marques Baptista Coelho
Vice-Presidente: Eng.º Defensor Fernando Gomes de Castro
Secretário: Arq.º José Clemente Beira Peres Ricon de Oliveira
Tesoureiro: Dr. Jorge Amável da Silva Quintela
Vogal: Arq.º António Manuel da Silva Rocha Reis Cabrita
Vogal: Arq.ª Pais. Dora Helena de Albuquerque Lampreia
Vogal: Dr.ª Maria Teresa Ribeiro Machado
Conselho Fiscal:
Presidente: Arq.º António Carlos de Oliveira Coelho
Vogal: Dr. Dâmaso Lopes de Sousa Silva
Vogal: Eng.º José Manuel Martins Soares de Sousa

Objectivos específicos do Grupo Habitar (Artigo 2º dos Estatutos do GH):
O Grupo Habitar orientará a sua actividade, designadamente, para os seguintes objectivos específicos:
a) Aprofundar a história e a teoria da arquitectura habitacional, privilegiando a realidade nacional e atendendo às características específicas da habitação apoiada.
b) Considerar as ligações e os conflitos mais frequentes entre os aspectos da concepção residencial que decorrem de noções fundamentais da teoria e da história da arquitectura e a realidade de uma promoção habitacional que privilegie a satisfação dos moradores.
c) Fomentar o retorno cultural e social dos investimentos em habitação, pois o património de amanhã realiza-se hoje, sendo necessário privilegiar empreendimentos com uma qualidade adequada.
d) Incentivar a melhor utilização do dinheiro público, através da promoção e difusão de procedimentos e medidas tecnicamente correctas na concepção e construção de conjuntos urbanos e edifícios, assim como na aplicação de uma estratégia de custo-benefício com uma perspectiva temporal alargada.
e) Incentivar a concepção e a prática da promoção residencial marcadas por projectos e objectivos programáticos qualificados, exigentes e actuais.
f) Considerar a articulação das medidas de política habitacional nos seus vários níveis e com os diversos tipos de modelos residenciais e de promoção existentes.
g) Considerar as condicionantes e os proveitos de uma relação harmoniosa entre o território, entendido como suporte físico e biológico, e a promoção habitacional; os fundamentos do correcto Ordenamento do Território e da Paisagem como orientadores da ocupação urbana.
h) Aprofundar as características urbanas residenciais prioritárias, quer em termos físicos, funcionais e formais, quer no diálogo com o preexistente, quer em termos socioculturais fundamentados.
i) Reflectir sobre o espaço habitacional num contexto de cidade-região, ou metropolitano, e sobre as Estruturas Ecológicas Urbanas e Municipais como suportes e garantia da qualidade ambiental e do recreio das populações.
j) Considerar a importância do espaço exterior urbano como um espaço próprio, multifuncional e complementar do espaço construído, tanto à escala da cidade como à escala do bairro habitacional, nomeadamente na sua organização, funções, uso e fruição.
k) Aprofundar conhecimentos e o diálogo técnico sobre a concepção e execução do edifício habitacional, numa perspectiva ampla e multifacetada.
l) Desenvolver uma perspectiva técnica amplamente fundamentada do corpo exigencial, normativo e legal ligado à promoção de habitação.
m) Abordar as expectativas do utilizador numa base de formulação exigencial que favoreça cada vez mais as soluções baseadas no desempenho, em detrimento das soluções integralmente prescritivas, como forma de promover a inovação.
n) Reflectir sobre a importância da múltipla dimensão do conforto ambiental residencial.
o) Reflectir sobre os aspectos da segurança contra incêndio em conjuntos e edifícios residenciais.
p) Reflectir sobre a valia e adequação habitacional dos mais conhecidos ou mais inovadores processos de construção, materiais, componentes, tipos de acabamentos e respectivo controlo de custos.
q) Reflectir sobre a importância de se adequar a organização dos espaços residenciais exteriores e interiores às características e à evolução do funcionamento citadino, da estrutura vicinal, do uso do espaço público, da organização familiar, e da apropriação habitacional.
r) Considerar e desenvolver a problemática das ligações entre habitação e ecologia através de um entendimento amplo, multifacetado e aprofundado de eco-urbanismo, ecologia do habitat e sustentabilidade energética, atendendo às bases essenciais de ética e de verdadeira humanização nos espaços habitacionais.
s) Reflectir sobre soluções de requalificação urbana e residencial, bem como sobre as especificidades deste tipo de intervenção em conjuntos de habitação apoiada.
t) Considerar e aprofundar as práticas de promoção residencial ligadas a processos habitacionais participados pela população e localmente sustentados e apoiar tecnicamente as actuações locais tendentes à defesa dos direitos habitacionais dos cidadãos.
u) Aprofundar as exigências e a importância de uma perspectiva multidisciplinar na actual concepção e promoção residencial e respectivos cuidados de gestão.
v) Reflectir sobre os instrumentos legais, políticas e programas de habitação em vigor, assinalando os aspectos positivos e negativos e perspectivando os seus efeitos futuros.

Contactos do GH

Sede: Grupo Habitar, Av. do Brasil 101, 1700 – 066 Lisboa. Contactos: Lisboa: António Baptista Coelho, abc@lnec.pt Tel. 218443679/Fax. 218443028, Tm. 914631004 Porto: José Clemente Ricon, jroliveira@inh.pt Tel. 226079670 Para qualquer informação complementar bastará um contacto telefónico ou por e-mail. Notar que a adesão ao Grupo Habitar está prevista nos seus estatutos e depende de uma inscrição prévia a realizar em ficha própria, que pode ser enviada por mail ou solicitada na sede do GH. Posteriormente a Direcção do GH apreciará a proposta de inscrição.


Lisboa, Encarnação Olivais Norte, 22 de Março de 2007
Editado por José Romana Baptista Coelho

quinta-feira, março 15, 2007

Humanização do habitar: algumas reflexões – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 130

 - Infohabitar 130

Humanização do habitar: algumas reflexões


Fig. 1

Disse Carlos de Azevedo que “a casa é um documento autêntico da vida do homem – documento de pedra e cal, mas de extraordinária importância para estudarmos os costumes, a evolução do gosto e da vida social.” (1)
E Vicente Verdú, citado por Anatxu Zabalbeascoa, situa a casa “entre a realidade e o desejo … entre o possível e o desejado” e diz que a casa “pode acolher sonhos e satisfazer necessidades.” (2)

Fig. 2: uma arquitectura caracterizada, viva e culturalmente fundamentada – Caldas da Rainha, Telheiras Lisboa (Arq. Rodrigo Rau), Parque das Nações Lisboa, o Porto à noite.

Os grandes autores estão a convergir em matérias que muito têm a ver com uma arquitectura caracterizada, viva e culturalmente fundamentada. Matérias a conjugar em partes de novas e velhas cidades que para serem sustentáveis têm de estar cheias de interesse urbano e de vitalidade habitacional. Cidades que acolham o crescimento da necessidade de mais habitação, que resulta da desagregação da família tradicional, do aumento da esperança de vida, do desenvolvimento do trabalho e do lazer em casa, e também da concentração urbana, que irá agudizar-se nos próximos decénios.

E não nos iludamos, é, de facto, ainda preciso construir nova habitação, Espanha e França têm apontado, recentemente, tal necessidade; e só em França, e por conta dos maus exemplos do passado recente, parece que serão demolidas e feitas “de novo”, 250.000 habitações, em 10 anos, realojando-se, assim, espera-se, melhor, cerca de 5 milhões de suburbanos.
Fig. 3: Madalena, Funchal, de Duarte Cabral de Mello, Maria Manuel Godinho de Almeida e João Francisco Caires (1992)

Mas entre fazer de novo e reabilitar habitação, entre novos conjuntos e o fundamental “construir no construído”, num caso e noutro há que humanizar e vitalizar, urgentemente, centros históricos e subúrbios; e num tal desígnio, é fundamental o habitar, e um habitar bem pormenorizado e qualificado, que não falhe mais nas suas ligações com o habitante e com a cidade, e para tal não chegam os aspectos mais objectivos da qualidade residencial.

Figura 4: sobre os vários níveis urbanos habitados; Baixa de Lisboa, Cooperativa Massarelos Porto de Francisco Barata e Manuel Fernandes Sá, Alvalade Lisboa de Faria da Costa uma rua residencial
E é nessa matéria de uma ampla pormenorização do habitar que muito está em jogo, em termos de humanização: Diz Fumiko Maki, que “nas cidades do passado, há a família e acima desta a comunidade e acima desta a cidade. Há um mundo público evidenciado e, por outro lado, há um mundo privado afirmado, e cada um deles interage com o espaço para formar cidade.”(3)

Entre estes dois mundos sempre houve um terceiro mundo, o do espaço comum ou colectivo, que assegura uma aliança com a convivialidade urbana e citadina , e que é ainda o verdadeiro elemento agregador da cidade de hoje; e Georges Perec descreve-o: "o lugar neutro, que é de todos e de ninguém‚ onde as pessoas se cruzam quase sem se ver, onde a vida do prédio ecoa..., longínqua e regular. Do que se passa por detrás das pesadas portas dos apartamentos apenas captamos quase sempre esses ecos estilhaçados, esses restos, esses destroços, esses esboços, esses estímulos, esses incidentes ou acidentes que se desenrolam no que se chama as «áreas comuns»....”(4)
Figura 5

Mas em todos estes mundos há, hoje em dia, na cidade contemporânea, sinais bem negativos: de desumanização, de isolamento atrás da porta de cada habitação e de crítica falta de cidade habitada e amigável; dá vontade de dizer, falta de cidades suaves e calmas, conceitos estes que podem ser bem copiados da engenharia de tráfego, pois nem só o tráfego precisa de modos suaves e de modos de acalmia; toda a cidade deles necessita.
E sobre eles diz Riken Yamamoto, que “uma coisa que sentimos quando tentamos viver em soluções habitacionais densificadas é que a disposição dos compartimentos separa totalmente do exterior. O encerramento e a abertura das habitações, a relação entre interior e exterior, foram assuntos frequentemente investigados, mas Os sentimentos reais, quando aí tentamos viver são horríveis. Até quando subimos as escadas, vendo apenas portas de segurança fechadas, sentimos uma crítica falta de compreensão das actividades no interior das habitações. E ao entrar e ao fechar-se a porta, tudo se torna um outro mundo, totalmente isolado do mundo real.” (5)
Vale bem a pena confrontar esse “lugar neutro, que é de todos e de ninguém, onde a vida do prédio ecoa”, referido por Perec, com esta “crítica falta de compreensão das actividades no interior das habitações” e com este “outro mundo, totalmente isolado do mundo real”.

Figura 6: sobre os limiares urbanos habitados e coesos, uma redescoberta da importância formal e convivial dos “limiares” na humanização habitacional da cidade – Alvalade de Faria da Costa, Habijovem Albufeira de Faria da Costa, Chasa Alverca coord. Duarte Cabral de Mello, Monte Espinho Matosinhos de Paula Petiz.

Riken Yamamoto aponta no sentido de uma redescoberta da importância formal e convivial dos “limiares” na humanização habitacional da cidade, numa linha gémea daquela seguida por Alexander e Chermayeff em 1963 e por Hertzberger em 1991, e diz que tudo é uma questão de “organizações” espaciais; … matéria bem na linha de vários desenvolvimentos feitos neste trabalho, por exemplo, ao nível do desenho, das tipologias residenciais, das “escalas” urbanas e de uma ampla integração.

Figura 7: exemplos de habitações que atingem um significado social (HSS) - Cooperativa Lar Para Todos, Beja, de Raúl Hestnes Ferreira (1986); reabilitação para pequenos fogos para idosos, Funchal, de Susana Fernandes (2001); Fronteira, de Alexandre Costa e Cláudia José (2003); Mosteiró, Vila do Conde, de Miguel Leal (2003); cooperativa UGTIMO, Zambujal, de José Bicho (1997); Mataduços de Carlos Fonseca e Alfredo Machado (2001); Milheirós, de João Carlos Santos (2001); Chouso, de Luís Miranda (1999); e B. Padre Cruz, de Rosa Leitão (1992) ...

Sublinha-se, também, que a humanização do habitar não tem a ver com os custos da construção, mas sim com a qualidade do projecto e da construção. E, a propósito, cita-se uma afirmação bem recente de Kazuo Shinohara: “na nossa enorme sociedade actual há pouca diferença entre fazer cem casas ou duzentas casas; a quantidade que é difícil apurar é o número de casas que são feitas e que atingem um significado social.” (6)
E termina-se lembrando o conceito “from the bedside to the bench”, apontado, recentemente, por António Coutinho; um conceito que, nas áreas do habitar e da arquitectura, tem de ligar urgentemente os casos habitacionais humanizados às mesas de concepção de intervenções habitacionais e urbanas.

Figura 8: da complexidade e da subtileza

E lembremos, a propósito, uma recente e fundamental afirmação de Benevolo e Albretch: “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza. Só o leque completo dos resultados em que a excelência qualitativa aflora das maneiras mais diversas e imprevistas, dá uma ideia justa dos recursos da mente humana...” (7)

Figura 9: habitare, derivado de habere, ter, implica uma identidade entre a pessoa e o mundo

Sustenta Franco Purini que “a etimologia latina de habitare, derivado de habere, ter, implica uma identidade entre a pessoa e o mundo. A base do conceito de habitar é, pois, muito ampla, e exprime um sentido de plenitude, de totalidade e de segurança...” (8)
Temos, assim, a palavra “habitar”, que sintetiza um verdadeiro e amplo serviço de habitação, que parece ser o objectivo central de toda esta ideia; de certo modo até se pode considerar que o conceito de habitar já, em si, inclui o sentido de humanização.

Figura 10: uma humanização do habitar que tem de passar por reflexões técnicas, mas também por sonhos.

Uma humanização do habitar que tem de passar por reflexões técnicas, mas também por sonhos, pois, como escreveu Kafka:
“Quando me deixo levar pela meditação, perco-me em reflexões técnicas, recomeço a sonhar uma toca perfeita sob todos os aspectos, e vejo com os olhos fechados fascinantes possibilidades de arquitecturas ideais...”
E uma humanização do habitar que tem de passar por certezas, Como as de Sophia de Mello Breyner:
“Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes”,

Referências bibliográficas:
[1] Carlos de Azevedo, “Solares Portugueses – introdução ao estudo da casa nobre”, Livros Horizonte, 1988 (1969), (p.13)
2 Anatxu Zabalbeascoa, “La casa del arquitecto”, Ed. Gustavo Gili, p.6, 1995.
3 Fumiko Maki, citado por Riken Yamamoto, “Spatial Arrangement Theory – On the Concept of «Threshold»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, p. 440.
4 Georges Perec, “A vida modo de usar” 1989, Trad. Pedro Tamen, (1978), p. 19.
5 Kenchiku Zasshi, em “Lifestyles and Layouts of Mass Housing” (1990), citado por Riken Yamamoto, “Spatial Arrangement Theory – On the Concept of «Threshold»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, p. 441.
6 Kazuo Shinohara, “Now, «modern next»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, Tóquio, TOTO Shuppan 2005, p. 435.
7 Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “As Origens da Arquitectura”, 2002, pp.10 e 13.
8 Franco Purini, “La Arquitectura Didactica”, pp. 126 a 130 (a marcação a bold é minha).

quinta-feira, março 08, 2007

O conjunto de habitações sociais do Monte de São João – artigo de Duarte Nuno Simões - Infohabitar 129

- Infohabitar 129

Introdução ao texto de Duarte Nuno Simões

Reedita-se, em seguida um texto de análise elaborado pelo Arq. Duarte Nuno Simões sobre o conjunto habitacional promovido pela Câmara Municipal do Porto no Monte de São João, Paranhos, Porto, projectado pelos Arquitectos Rui Almeida e Filipe Oliveira Dias, e que foi Prémio do Instituto Nacional de Habitação de Promoção Municipal em 2004. Este artigo foi um dos primeiros editados no Infohabitar, mas é agora acompanhado por uma sequência fotográfica que não pretende acompanhar o texto, mas sim desenvolver uma outra leitura, naturalmente “paralela”, mas feita por outros olhos e numa outra sequência de “passeio” relativamente ao conjunto em análise.

Sublinha-se que a verdadeira leitura desta análise só ficará completa com a visita a este conjunto de realojamento, visita esta que vivamente se recomenda, no entanto o texto incide seja sobre vários aspectos da desejável “fusão” entre a qualidade arquitectónica e a qualidade residencial, seja sobre os modos que podem e devem ser seguidos para um melhor conhecimento das obras arquitectónicas e residenciais, seja também sobre importantes aspectos elementares do próprio desenho da arquitectura urbana; e sobre todos estes aspectos é muito rico o texto que se segue, com o os qual todos ganharemos a partir de uma leitura e reflexão cuidadas.

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 7 de Março de 2007
António Baptista Coelho


O conjunto de habitações sociais do Monte de São JoãoUm texto de análise de Duarte Nuno Simões,
com fotografias de António Baptista Coelho



O conjunto de habitações sociais do Monte de São João, ultrapassadas as primeiras impressões de claro agrado, revela uma grande coerência quanto aos objectivos que parece terem norteado os seus autores.

Como todas as obras de qualidade o conjunto não revela de imediato os seus “segredos”, antes apela ao nosso interesse em descobri-los, ou seja, de aceitar o jogo de desvendar o que, estando patente, não podemos de imediato, conscientemente, ver…


Da arquitectura deste conjunto dir-se-á que recusa o auto-comprazimento pela forma como fim último e seu principal objectivo. Aqui a arquitectura assume a sua condição mais nobre de espaço da vida dos homens , onde o livre espraiar dos afectos e da solidariedade entre vizinhos será possível. Tal como foi concebido este conjunto não se fecha autisticamente sobre si próprio, antes estimula o encontro, a troca, a convivência dos moradores não podendo prescindir, também, do interesse pelos valores formais, aqui postos ao serviço de uma proposta que assume, deliberadamente, a construção do espaço dos homens, sua finalidade última e imprescindível.

Então a que valores formais me refiro?

Antes de mais à escala do conjunto, à clareza da imagem proposta, ao tratamento dado à praça interna, mas também à simplicidade dos elementos arquitecturais, independentemente da sua importância e à existência de funções complementares integradas no conjunto edificado.


A recusa do modelo do grande bloco em altura, parede intransponível, objecto-obstáculo no qual as pessoas, os moradores, tendem a isolar-se umas das outras, originou um conjunto cujos elementos se desmultiplicaram em vários volumes, articulados em “três blocos que parecem oito”, como dizem os seus autores. Estes ao desconstruirem o modelo do grande bloco, propõem-nos um conjunto à nossa escala, uma arquitectura surpreendentemente jovem e afável. “Três blocos que parecem oito” testemunha a consciência da importância e do empenhamento dos seus autores de resolverem o problema da escala do conjunto, tomado o homem como referência, assumindo também conscientemente a continuidade da memória da cidade feita de edifícios que, sucessivamente, se encostam a outros edifícios, dando origem a praças e ruas.


Refira-se também a clareza com que o conjunto se apresenta a quem desprevenidamente o veja: oito blocos que afinal não são senão três e que determinam e abraçam uma praça interna, organizada em dois níveis principais, tema originador de grande parte da riqueza espacial do conjunto, caracterizado por uma aparente e deliberada simplicidade dos elementos vários que o compõem.

Cada um dos três blocos é servido por uma escada e um elevador e tem, em cada piso, uma galeria coberta que dá acesso a quatro fogos. Ora, a opção pelo uso de galerias não é inocente: é que as galerias acrescentam à sua função imediata de acesso às habitações, aquela outra de se constituírem como elementos de animação, de sinal de vida do conjunto e também como espaços de transição entre os interiores das habitações, quadro da privacidade das famílias e a praça interna quadro possível das mais variadas formas de sociabilidade dos habitantes.


Por isso, pelo discreto e imprevisível espectáculo que as galerias podem suscitar, as suas guardas não se constituíram como defesas opacas, antes protecções que assumem a transparência garantida pelos painéis de rede metálica.

A praça interna, evolução dos antigos logradouros privados dos quarteirões urbanos tornada aqui espaço comum, é um dos elementos que melhor caracterizam, conceptual e formalmente, o conjunto do Monte de São João. De facto, a praça tem todas as condições para estimular e servir de suporte a modos de conviviabilidade entre os habitantes e até entre estes e os habitantes das proximidades. Pense-se como as crianças poderão usar a praça em segurança para os seus jogos e nos contactos que elas induzirão entre os adultos seus familiares!

Outra das características do conjunto corresponde à simplicidade do desenho dos seus elementos mais significantes como sejam as janelas, as guardas das galerias, os óculos que iluminam e assinalam as escadas, a elegância das entradas dos três blocos, a organização dos vários elementos que integram a praça interna e, ainda, o desenho das entradas de luz da garagem colectiva, sem esquecer o cuidado posto na pormenorização dos interiores dos 55 fogos e dos vários equipamentos que integram o conjunto: um ATL, a sede da associação de moradores e da administração do conjunto e três fracções comerciais.
Não gostaria, também, de deixar em claro dois aspectos que considero muito significativos da minúcia e cuidado com que este conjunto foi projectado e realizado. Um, as paredes de fundo das galerias, pintadas cada uma com sua cor pastel, criam uma referência facilmente apreensível sem prejuízo da unidade do conjunto. O outro, a ligeira inclinação, que as afasta de um aparente paralelismo, das paredes dos corpos avançados que rematam os dois blocos e que assinalam a articulação entre os níveis da praça interna: não sendo paralelas, como parecem, as referidas paredes reforçam a continuidade da praça, delimitada e definida pelas frentes que sobre ela abrem, sendo assim a unidade do conjunto salvaguardada e reforçada.

Tudo aqui transmite-nos uma sensação tão evidente de agrado que um esforço de análise mais apurado do que o que tentei pode parecer inútil ou mesmo fastidioso. No fundo ele não vai acrescentar grande coisa ao prazer sentido: tenho presente a reacção de pessoas tão diferentes de formação e, até, de geração como a dos elementos do Júri do Prémio INH 2004 que não se eximiram a espontaneamente manifestar o seu agrado pelas características observadas deste conjunto de habitações sociais.

Toda a verdadeira arquitectura – a verdadeira, aquela que não só parece, mas que é – é um labirinto, convite não só à curiosidade mas à necessidade da descoberta. E o visitante, qual novo Teseu a quem Ariana deu outra vez o prudente fio, poderá encontrar o caminho da saída, daquilo que, escondido, se encontra bem à vista: o caminho de um maior entendimento.

A arquitectura não pode prescindir da sensibilidade nem da inteligência de quem a imagina. Mas uma e outra têm que ser acrescentadas pelo talento. Só assim se garantirá a passagem de um nível honesto mas banal para o desejável grau superior da verdadeira arquitectura assumindo-se então a sua vocação de obra de arte, de contribuição cultural, de marca significante do tempo em que vivemos. Todas essas qualidades o conjunto do Monte de São João no-las revelou.

Lisboa, 06 de Setembro de 2004
Arq. Duarte Nuno Simões

Texto ilustrado e revisto para reedição em 2007-03-07